A FIFA quer vender uma fatia do Mundial e a UEFA respondeu que o futebol não está à venda
A FIFA quer criar a FIFA Forward Enterprise e angariar até 4,2 mil milhões de dólares com investidores privados. A UEFA rejeita, Bruxelas avisa que vai olhar para o caso e Portugal organiza o Mundial de 2030.
Há discussões de futebol que se resolvem no relvado e há outras que se resolvem em salas com advogados. Esta é claramente da segunda espécie, e mesmo assim mexe com toda a gente que gosta do jogo.
O que é a FIFA Forward Enterprise?
É uma empresa nova, detida a cem por cento pela FIFA, que junta num só sítio os direitos comerciais do organismo. A ideia é abrir uma parte do capital dessa empresa a investidores privados e assim angariar até 4,2 mil milhões de dólares. As participações vendidas seriam minoritárias e sem controlo, e a estrutura foi inicialmente avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares. Traduzido: a FIFA continua a mandar, mas passa a ter sócios a olhar para as contas do produto mais valioso que tem, o Campeonato do Mundo.
A UEFA não gostou nada. Acusou a organização presidida por Gianni Infantino de atravessar uma linha vermelha ao abrir os ativos comerciais do futebol mundial ao capital privado, e resumiu a posição numa frase difícil de interpretar de outra maneira: o futebol não está à venda. As instâncias europeias marcaram uma reunião de urgência com as 55 associações filiadas para decidir o que fazer a seguir.
Porque é que isto interessa a Portugal?
Porque o Mundial de 2030 joga-se em casa. Portugal organiza o torneio com Espanha e Marrocos, com jogos também na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. Qualquer mudança na forma como a FIFA gere e vende o produto mexe com receitas, com bilhetes, com direitos de transmissão e com o que sobra para as federações e para os clubes. Ainda faltam quatro anos, mas as regras do dinheiro estão a ser escritas agora.
Bruxelas também já se pronunciou. O comissário europeu responsável pelo desporto, Glenn Micallef, avisou que não se toca no desporto europeu e garantiu que a Comissão Europeia vai analisar as propostas com o máximo cuidado, dentro das suas competências. Pelo meio ficou a nota de que o plano levanta questões de direito da concorrência, o que raramente é uma frase inofensiva quando sai de Bruxelas.
Já tínhamos acompanhado tudo o que se passou no Mundial deste ano e o arranque da nova temporada da Primeira Liga. As posições oficiais do organismo europeu vão sendo publicadas no site da UEFA.
Por Vasco Almada
Imagem: Wikimedia Commons