O Uganda começou a distribuir comida no Karamoja depois de 19 mortes por fome
O governo ugandês está a entregar 9,4 milhões de quilos de farinha de milho e feijão a quase 314 mil famílias no Karamoja, a região que a seca deixou sem colheitas.
Há regiões onde a chuva não falhar é a diferença entre um ano normal e um ano em que se conta mortos. O Karamoja, no nordeste do Uganda, acaba de ficar do lado errado dessa linha: a época das chuvas não deu o que devia, as culturas não vingaram e o governo ugandês está agora a distribuir comida de emergência porque já morreram pessoas de fome.
O balanço oficial começou nas 16 mortes, quando a operação arrancou a 9 de julho, e subiu para 19 ao longo das semanas seguintes. Por trás desse número está uma escala bem maior: cerca de 1,5 milhões de pessoas na região enfrentam falta de alimentos e risco de malnutrição.
Quanta comida está a ser distribuída no Karamoja?
O Gabinete do Primeiro-Ministro anunciou a 20 de julho que vai entregar 9.419.610 quilos de alimentos — farinha de milho e feijão seco — a 313.987 agregados familiares espalhados por 480 freguesias, nos nove distritos do Karamoja. A distribuição decorre ao longo de julho e agosto, começando pelas zonas mais castigadas e alargando depois aos aglomerados do centro, oeste e sul da região. O parlamento ugandês aprovou 45 mil milhões de xelins para pagar a operação.
Porque é que o Karamoja é sempre o primeiro a cair?
É a região mais seca e mais pobre do Uganda, historicamente dependente de pastorícia e de uma agricultura de subsistência que vive inteiramente da chuva sazonal. Quando essa chuva chega tarde ou chega a menos, não há reserva nenhuma a amortecer o golpe — e o que num sítio com regadio seria uma colheita fraca, ali é fome a sério em poucos meses.
É também um lembrete desconfortável de como as crises alimentares funcionam: raramente aparecem de repente. Vão-se montando ao longo de uma estação inteira, à vista de toda a gente, e só passam a notícia quando alguém morre. O Uganda já tinha estado nas manchetes este ano por outro motivo, quando fechou a contagem regressiva do surto de ébola — desta vez o inimigo não tem vacina, só logística.
Quem quiser acompanhar os dados de insegurança alimentar na região pode segui-los através do Programa Alimentar Mundial no Uganda, que monitoriza a situação no terreno.
Por Marta Carneiro
Imagem: Tusk media / Wikimedia Commons (CC0)