O Mundial 2026 deixou milhares de adeptos de fora, e o problema chama-se visto
A proibição de viagem dos EUA abrange 39 países, quatro deles apurados para o Mundial 2026. Houve ainda uma caução de 15 mil dólares para adeptos de cinco países — Cabo Verde incluído.
No domingo, o MetLife Stadium vai encher para a final do Mundial. Mas há um grupo de adeptos que este torneio nunca chegou a receber, e não foi por falta de bilhete: foi por não conseguirem um visto para entrar nos Estados Unidos.
Que países é que ficaram de fora do Mundial 2026?
A proibição de viagem norte-americana abrange cidadãos de 39 países, e quatro deles qualificaram-se para o torneio: Haiti, Irão, Costa do Marfim e Senegal. Houve exceções — jogadores, treinadores e o pessoal essencial das comitivas entraram, tal como duplos nacionais, residentes permanentes e quem já tinha visto válido. Ou seja: as seleções jogaram, os adeptos comuns é que ficaram em casa a ver pela televisão.
E onde entra Cabo Verde nesta história?
Entra por outra porta, e é a que mais nos toca. Cinco países participantes — Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia — viram os seus cidadãos com visto não-imigrante sujeitos a uma caução de 15 mil dólares para poderem assistir aos jogos em solo americano. Quinze mil dólares. Para ver futebol.
Em meados de maio, o Governo norte-americano dispensou a exigência para os adeptos desses cinco países que já tivessem comprado bilhete até meados de abril. É um alívio real, mas chegou tarde para muita gente: quem hesitou em comprar bilhete precisamente por causa da caução ficou fora dos dois lados da regra.
Para Portugal, isto não é um problema distante. Cabo Verde fez a estreia da sua vida neste Mundial, e boa parte da comunidade cabo-verdiana que festejou cada jogo fê-lo a partir de Lisboa, de Setúbal ou do Porto — porque ir lá, para muita gente, nunca esteve em cima da mesa. O empate a duas bolas com o Uruguai foi celebrado com muito mais força na margem sul do Tejo do que em qualquer bancada americana.
Foram só os adeptos?
Não. Um árbitro somali foi impedido de entrar no país apesar de ter visto válido, e um avançado iraquiano foi retido durante sete horas de interrogatório, com inspeção ao telemóvel incluída. Quando nem quem trabalha no torneio passa a fronteira sem sobressalto, a palavra “anfitrião” começa a precisar de aspas.
Some-se isto ao modelo de preços dinâmicos que levou os bilhetes da final a valores próximos dos 9.500 euros e o retrato fica completo: o Mundial mais visto de sempre nos estádios foi também um dos mais difíceis de alcançar para quem não tinha passaporte certo nem carteira funda. O calendário e a informação oficial estão no site da FIFA, e o quadro atualizado fica no nosso acompanhamento diário.
Um Mundial a 48 equipas foi vendido como o torneio mais aberto de sempre. Abriu o relvado a mais países — e fechou a porta a muitos dos seus adeptos.
Por Vasco Almada
Imagem: Kenneth C. Zirkel / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)