A UEFA diz que já perdeu a confiança em Infantino e a crise na FIFA só piorou
A UEFA anunciou que perdeu a confiança em Gianni Infantino menos de 24 horas depois de a FIFA recuar no plano de vender uma fatia comercial do Mundial. A crise na liderança do futebol mundial agrava-se.
A UEFA fez o que raramente faz por escrito: disse, num comunicado, que já não confia no presidente da FIFA. E fê-lo menos de 24 horas depois de Gianni Infantino ter recuado no plano de vender uma fatia comercial do Mundial, o mesmo plano que tinha posto meio futebol mundial em pé de guerra.
O texto não deixa margem para leituras simpáticas. A UEFA escreveu que a atual liderança da FIFA não perdeu apenas a confiança da confederação europeia, mas a de muitos outros membros da família do futebol — e foi buscar as promessas que Infantino fez em 2016, quando se candidatou à presidência: gestão transparente e recursos da FIFA aplicados no desenvolvimento do jogo. Nas duas, diz a UEFA, falhou.
Porque é que a UEFA se virou contra Infantino agora?
Porque o recuo da FIFA não chegou para fechar o assunto. A ideia de abrir o Mundial a capital privado juntou contra si confederações, federações e associações de jogadores, e quando Infantino travou o processo a UEFA leu isso como vitória — mas uma vitória que expôs como a decisão tinha chegado tão longe sem escrutínio. É esse ponto, o da transparência, que a Europa está agora a martelar. Já tínhamos contado como nasceu o plano de venda e a primeira resposta europeia; esta é a fase em que a discussão deixa de ser sobre o negócio e passa a ser sobre quem manda.
O que é que isto muda na prática?
Por enquanto, nada de formal. A UEFA não tem poder para destituir ninguém, e o congresso da FIFA continua a ser onde tudo se decide, com uma aritmética que há uma década favorece Infantino. Mas a confederação disse também que já está a trabalhar com outros parceiros à procura de uma solução para a liderança do futebol mundial — e essa frase, num comunicado oficial, é o começo de uma campanha, não um desabafo.
Para Portugal, o interesse é direto: a Federação Portuguesa de Futebol vota nesses congressos, e a posição que a UEFA está a construir passa por alinhar o máximo de federações europeias possível. Os estatutos e o calendário dos congressos estão publicados no site oficial da FIFA.
Rasgar a confiança num comunicado é fácil. Substituir um presidente com dez anos de votos acumulados é outra história.
Por Vasco Almada
Imagem: United Nations Office on Drugs and Crime / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)