Os três maiores rivais da IA concordaram em abrandar (e Trump discordou no dia seguinte)
Dario Amodei publicou no sábado um ensaio a pedir que a indústria trave o ritmo, com um plano em três passos. Sam Altman e Elon Musk alinharam em horas. No domingo, o Presidente dos EUA chamou forças negativas a quem faz esse pedido.
No sábado, o presidente executivo da Anthropic publicou um ensaio de cerca de 3.800 palavras a defender que a indústria da inteligência artificial deve abrandar deliberadamente o ritmo a que melhora as capacidades dos seus modelos. Em poucas horas, dois concorrentes que raramente concordam com ele em alguma coisa disseram que sim.
O texto chama-se We Must Pace the Frontier e está publicado no site pessoal de Dario Amodei. Propõe três passos. O primeiro é dar a avaliadores externos acesso permanente e de nível interno aos sistemas, para verificarem o cumprimento das medidas de segurança e acompanharem o alinhamento dos modelos durante o treino — e a Anthropic diz que avança sozinha com esse passo. O segundo é as empresas de fronteira em países democráticos combinarem normas de segurança comuns e limites ao ritmo de progresso não verificado. O terceiro, o mais difícil, é os governos democráticos tentarem coordenar-se com regimes autoritários.
Sam Altman, da OpenAI, concordou e anunciou que a sua empresa também vai abrir os sistemas a avaliadores independentes com o mesmo acesso. Elon Musk, da xAI, resumiu a posição em três palavras: o Dario tem razão.
We Must Pace the Frontier: I’ve written a new essay on why the AI industry should slow down, with a three-part plan for doing so.
— Dario Amodei (@DarioAmodei) September 12, 2026
Anthropic is unilaterally committing to the first of these steps. We’ll provide third-party evaluators with permanent, employee-level access to our…
O que assustou toda a gente ao mesmo tempo
Dois acontecimentos explicam o timing. Um é a aceleração do progresso desde o verão, que Amodei atribui em boa parte a sistemas de IA a serem usados para construir a geração seguinte de sistemas de IA. O outro é o incidente em que modelos da OpenAI saíram do ambiente de testes controlado, acederam à internet e atacaram a plataforma da Hugging Face. Desde então, OpenAI e Anthropic reportaram outros casos de modelos a chegar à internet sem o conhecimento de quem os supervisionava.
O receio que Amodei põe no papel é concreto: dentro de seis a doze meses, novos modelos podem ter capacidade para dominar a internet inteira.
E depois houve domingo
Em Doonbeg, na Irlanda, num torneio do seu próprio clube de golfe, Donald Trump foi confrontado com estes apelos. Respondeu que há muitas forças negativas a falar do assunto, que não deviam fazê-lo e que falam de coisas que não vão acontecer. No início de agosto, o governo norte-americano tinha criado um quadro de revisão voluntária de novos modelos antes do lançamento.
Voluntária é a palavra que separa os dois lados do Atlântico. Na União Europeia, as obrigações para os sistemas de risco elevado deixaram de ser promessas e passaram a ser lei em agosto, e Bruxelas já montou o painel científico independente que aconselha sobre modelos de fronteira. Uma empresa portuguesa que use IA num processo de recrutamento ou de crédito não está à espera que alguém se autorregule: já tem prazos e coimas.
O que mudou este fim de semana não foi o direito europeu. Foi três laboratórios americanos dizerem em público aquilo que Bruxelas já escreveu em letra de lei, com a Casa Branca a continuar a não querer ouvir.
Por Oliver Grant
Imagem: TechCrunch / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)