O Estado voltou ao défice até junho, e a culpa é sobretudo das dívidas do SNS
As contas públicas fecharam o primeiro semestre de 2026 com um défice de 213 milhões de euros, depois de um excedente de mais de dois mil milhões no ano passado.
As contas do Estado fecharam o primeiro semestre no vermelho: 212,6 milhões de euros de défice até junho. Não é um número que assuste sozinho, mas é uma inversão e tanto, porque no mesmo período do ano passado havia um excedente de mais de dois mil milhões. Entre um ponto e outro há uma diferença de 2.230 milhões de euros.
Porque é que o saldo virou?
Por causa de duas contas que o Estado decidiu pagar de uma vez. A primeira, e a maior, foi a liquidação de dívidas antigas do Serviço Nacional de Saúde aos fornecedores — hospitais que arrastavam faturas há anos e que finalmente as viram pagas. A segunda foram os apoios lançados depois das tempestades do inverno, que saíram todos do lado da despesa sem receita nova a compensar.
Tirando o esforço de acertar as contas com os fornecedores da saúde, o semestre teria fechado com um excedente na casa dos 1.100 milhões. Ou seja: o Estado não está a gastar descontroladamente, está a pagar o que devia. A diferença entre as duas leituras é o que vai dar pano para mangas nas próximas semanas.
E do lado da receita, como correu?
Bem, mas sem euforia. Os cofres receberam 29.089 milhões de euros em impostos no semestre, mais 1,9% do que no ano passado. É crescimento, só que suave — o suficiente para acompanhar a economia, não para tapar uma despesa extraordinária desta dimensão.
Há um pormenor que costuma passar ao lado e que vale a pena guardar: os pagamentos em atraso do Estado caíram para mínimos. Do ponto de vista de quem vende ao setor público, isso é a notícia da manhã, porque significa faturas liquidadas em vez de faturas prometidas.
Tudo isto chega numa altura em que o país já está a discutir o próximo Orçamento, e em que o PS já pôs em cima da mesa aquilo de que não abdica na negociação. Um semestre negativo dá argumentos aos dois lados: a quem defende contenção e a quem diz que o défice é apenas o preço de limpar dívida velha. Os números mensais de execução ficam sempre disponíveis no portal da Direção-Geral do Orçamento, para quem quiser ver a folha em bruto.
Em setembro, com o terceiro trimestre fechado, saberemos qual das duas leituras estava certa.
Por Beatriz Mota
Infografia: Tugadaily · dados Direção-Geral do Orçamento