A cocaína deu à costa na Comporta — foram 2,1 toneladas e nem um único detido
A Polícia Marítima recolheu 2.100 quilos de cocaína no litoral alentejano a sul de Tróia, além de bidões de combustível. Não há detidos e a investigação passou para a Judiciária.
Há praias onde a coisa mais dramática que aparece na areia é uma alforreca. Na Comporta, esta semana, apareceram fardos.
Quanta droga foi apreendida na Comporta?
Duas mil e cem quilogramas de cocaína, ou seja, 2,1 toneladas, recolhidas pela Polícia Marítima ao longo de vários pontos do litoral alentejano a sul de Tróia. A operação não foi um golpe único: os fardos foram sendo detetados e recolhidos ao longo de dias, numa ação de patrulhamento e vigilância da linha de costa que contou com o apoio da autoridade marítima local e de fuzileiros da Marinha.
Junto com a droga vieram vários jerricans de combustível. É esse pormenor que conta a história toda.
Como é que a cocaína foi parar à areia?
Bidões de combustível espalhados pela costa, ao lado de fardos, são a assinatura clássica de um desembarque que correu mal. A logística habitual é conhecida: uma embarcação-mãe deixa a carga ao largo, uma lancha rápida faz o trajeto final até terra e leva combustível extra a bordo porque não pode parar para abastecer. Quando alguma coisa falha — mau tempo, uma avaria, uma patrulha a aparecer no sítio errado à hora errada —, a tripulação alija tudo ao mar e desaparece. O que fica, o mar entrega.
A quantidade também diz alguma coisa. Duas toneladas não são uma operação de bairro; são uma remessa de escala atlântica, do tipo que costuma chegar da América do Sul e usar a costa ibérica como porta de entrada na Europa.
Quem está a investigar?
A Polícia Judiciária, para onde o processo foi encaminhado. Até agora não há detidos, o que é o resultado esperado quando ninguém aparece para reclamar a carga. A investigação vai agora tentar reconstruir a rota e perceber quem estava do lado de cá à espera — a parte mais difícil, e a única que interessa mesmo.
Não é a primeira apreensão grande do verão. Há dias a PJ tinha travado 61 quilos de cocaína no aeroporto de Lisboa, num esquema que passava por uma escala improvável, e a diferença de escala entre os dois casos mostra bem os dois mundos em que o tráfico se move: o das malas e o das toneladas. Os comunicados oficiais sobre operações no mar vão sendo publicados pela Autoridade Marítima Nacional.
Por Marta Carneiro
Imagem: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)