O Hamas aceitou entregar as armas e agora falta a parte difícil, que é acontecer
Trump anunciou um acordo do Board of Peace para desarmar o Hamas e passar Gaza a um governo técnico palestiniano. O roteiro tem de estar pronto em 14 dias.
Donald Trump apareceu na quinta-feira a anunciar aquilo a que chamou um acordo histórico: o Hamas e os restantes grupos armados de Gaza aceitam desarmar-se e entregar o controlo civil e de segurança do território a um novo governo tecnocrático palestiniano. O anúncio veio do Board of Peace, o órgão criado no âmbito do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, e chega meses depois desse cessar-fogo ter sido assinado.
Segundo a administração norte-americana, o entendimento resultou de negociações longas e delicadas com o Qatar, a Turquia e o Egito como mediadores. O acordo obriga a que o roteiro concreto do desarmamento — quem entrega o quê, quando e a quem — esteja escrito no prazo de 14 dias, com possibilidade de extensão se um organismo internacional de verificação e todas as partes concordarem.
O que é que o acordo obriga o Hamas a fazer?
Na prática, obriga a uma sequência de passos recíprocos e verificados de forma independente, do lado do Hamas e do lado de Israel, ao longo de sete a oito meses. Não é um botão que se carrega: é uma coreografia longa em que cada movimento de um lado destranca o movimento do outro.
E é aí que mora o problema. Responsáveis israelitas continuam abertamente céticos quanto à hipótese de o Hamas entregar mesmo o armamento. Do outro lado, um dirigente do Hamas veio dizer no dia seguinte que o cumprimento depende de Israel honrar os seus próprios compromissos — o que sugere que a ordem das coisas, sobretudo a articulação entre desarmamento e retirada israelita, ainda está longe de fechada.
Porque é que isto é diferente das outras vezes?
Porque desta vez há uma data e um mecanismo de verificação por escrito, em vez de uma intenção. Foi também o Hamas que, em julho, dissolveu o governo que geria Gaza há quase 20 anos, o que retirou pelo menos um obstáculo formal à ideia de uma administração técnica.
O que ainda não existe é a prova. Um roteiro em 14 dias significa meados de agosto — e é aí, e não no anúncio, que se percebe se isto vale o papel. Quem quiser acompanhar as posições oficiais das partes envolvidas encontra os comunicados no portal das Nações Unidas sobre a questão palestiniana.
Imagem: WAFA (Q2915969) in contract with a local company (APAimag… / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)