As festas de adeptos do Mundial 2026 viraram o melhor sítio para ver o jogo — e às vezes o único
Ver o Mundial 2026 num bar cheio de gente da mesma terra tornou-se o hábito da vez. Como as festas de adeptos e a diáspora mudaram a forma de acompanhar o torneio.
Há uma coisa que este Mundial deixou clara: muita gente já não escolhe o jogo, escolhe o sítio onde o vai ver. E o sítio, cada vez mais, é um bar, um centro comunitário ou uma praça cheia de gente da mesma terra — pessoas que percebem exatamente porque é que aquilo importa.
A ideia não é nova — ver futebol acompanhado é tão antigo como o futebol. O que mudou foi a escala. Com o torneio a decorrer nos Estados Unidos, no Canadá e no México, calhou jogar-se mesmo à porta das maiores comunidades de emigrantes do mundo. E essas comunidades responderam à altura, montando festas que funcionam menos como uma noite de bar e mais como uma tarde em casa dos avós — com a comida certa, a música certa e o barulho certo.
Porque é que as festas de adeptos cresceram tanto neste Mundial?
Porque a distância deixou de ser um problema e passou a ser o argumento. Para quem está longe, o jogo é uma desculpa para estar num sítio onde se fala a língua e onde ninguém precisa de explicar a euforia. Em Los Angeles, por exemplo, a Casa Mexico transmitiu todos os jogos do México sem cobrar um cêntimo à entrada — e é precisamente por não cobrar nada que se tornou um ponto de encontro, e não apenas mais um bar com um ecrã.
O resultado é curioso: muitas vezes, a festa ganha ao estádio. No estádio paga-se caro, chega-se cedo e senta-se ao lado de quem calhar. Na festa, está-se com os seus — e quando a seleção perde, perde-se entre gente igualmente mal disposta, o que, convenhamos, ajuda.
E os portugueses, onde é que vêem?
Portugal caiu nos quartos frente à Espanha, por 1-0, e isso apagou boa parte das festas portuguesas nos Estados Unidos e no Canadá antes das meias-finais. Mas não todas: em Newark, Toronto, Montreal e San José há casas portuguesas que continuaram a abrir para os jogos grandes, com o mesmo café, os mesmos pastéis e bandeiras a mais para quem já não estava a jogar.
Quem não conseguiu atravessar o Atlântico teve razões bem menos poéticas: o torneio deixou milhares de adeptos de fora por causa dos vistos, com esperas e cauções que tornaram a viagem impossível para muita gente. Para esses, a festa em casa não foi uma alternativa simpática — foi a única hipótese.
Vale a pena para os bares?
Vale, e muito: uma tarde de jogo enche um espaço a meio da semana com gente que fica, come e volta no jogo seguinte. A parte difícil é o depois — quando a seleção sai, a festa acaba de um dia para o outro. Por isso os sítios que sobrevivem ao torneio são os que já eram alguma coisa antes dele: uma pastelaria, um clube, uma associação.
O Mundial acaba no domingo, no estádio de Nova Iorque/Nova Jérsia, com a Espanha à espera de quem sobreviver a Inglaterra-Argentina — a ficha do jogo está no site oficial da FIFA. Depois disso, os ecrãs desligam-se e os bares voltam ao que eram. Fica a parte boa: durante um mês, muita gente lembrou-se de onde é. Acompanhe o resto do torneio no nosso ponto de situação diário do Mundial.
Por Vasco Almada
Imagem: Gobierno de la Ciudad de México / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)