Morreu o Luís Represas, a voz dos Trovante que meio país sabe cantar de cor
O músico morreu a 22 de julho, aos 69 anos, vítima de doença prolongada. Estava a celebrar 50 anos de carreira e tinha concertos marcados para 2027.
Há vozes que a gente não precisa de identificar. Bastam três segundos de rádio e sabemos exatamente quem está a cantar. Luís Represas era uma dessas vozes, e morreu na quarta-feira, 22 de julho, aos 69 anos, vítima de uma doença prolongada.
Porque é que o Luís Represas foi tão importante na música portuguesa?
Porque esteve no sítio certo quando a música portuguesa estava a decidir o que queria ser. Fundou os Trovante em meados dos anos 70 e foi a cara e a voz de uma banda que pegou na canção de intervenção, nas harmonias vocais e no folk e transformou tudo aquilo em pop portuguesa que se cantava em coro. Quando os Trovante acabaram, no início dos anos 90, Represas fez o que muito poucos conseguem: começou outra vez do zero a solo e voltou a ter êxitos que ficaram, de Feiticeira a Timor.
Ao longo de meio século foi também aquela figura discreta que aparecia sempre que era preciso — causas, homenagens, palcos partilhados com gente de outra geração. Estava precisamente a assinalar 50 anos de carreira e tinha datas marcadas nos Coliseus de Lisboa e do Porto para 2027, concertos que já não vão acontecer.
Como é que Portugal se despediu?
O velório decorreu na quinta-feira, na Basílica da Estrela, em Lisboa, e o funeral realizou-se na sexta-feira. Entre quarta e sexta houve o que costuma haver quando morre alguém assim: playlists improvisadas nas rádios, mensagens de músicos de todas as gerações e muita gente a descobrir que sabia as letras todas sem nunca ter comprado um disco.
Fica um catálogo que resiste bem ao tempo. Os discos dos Trovante continuam a soar surpreendentemente atuais, e as canções a solo entraram naquele repertório coletivo que se canta em jantares, em carros e em festas de aldeia — o mesmo país que enche festivais de norte a sul todos os agostos foi construindo com ele uma banda sonora sem dar por isso.
O trabalho dos autores portugueses e os direitos das suas obras são geridos pela Sociedade Portuguesa de Autores, onde ficam registadas as obras de uma carreira como esta.
Por Lucy Bennett
Imagem: Diogomedina / Wikimedia Commons (CC0)