A Suno treinou a IA com milhões de músicas sacadas do YouTube — e foi uma fuga de dados que a denunciou
Um hacker acedeu ao código-fonte da Suno e revelou como a app de música por IA raspou mais de dois milhões de canções do YouTube Music, Deezer e Genius para treinar os seus modelos.
A Suno, uma das apps de música por inteligência artificial mais populares do mundo, tem um lema simpático: “faz qualquer canção que consigas imaginar”. O que uma fuga de dados veio agora mostrar é de onde vem essa imaginação — de milhões de canções de outros, raspadas do YouTube Music, do Deezer, do Genius e de bibliotecas de música de arquivo, sem licença.
A história começou com um ataque informático: um hacker usou credenciais de um funcionário, comprometidas num ataque à cadeia de fornecimento em novembro, para aceder ao código-fonte da empresa. Lá dentro estava o mapa do tesouro — os sistemas de raspagem da Suno e os registos do que recolheram: mais de dois milhões de faixas do YouTube Music, milhares de horas de áudio do Deezer, dezenas de milhares de horas de música de arquivo e ainda letras recolhidas em massa do Genius.
O que mostra a fuga de dados da Suno?
Em resumo, aquilo que as editoras sempre suspeitaram e a empresa nunca detalhou. A RIAA, que representa a Universal, a Sony e a Warner, processou a Suno em 2024 por violação de direitos de autor “a uma escala quase inimaginável” — e a empresa respondeu sempre com a mesma defesa: treinar com música “publicamente disponível” na internet seria uso justo. O código agora exposto dá aos advogados das editoras algo que até aqui não tinham: o detalhe técnico de como a recolha contornava as proteções das plataformas.
O caso apanha a indústria num momento curioso: a Warner já tinha saído da guerra e assinado um acordo de licenciamento com a Suno no final de 2025, enquanto as restantes editoras seguem em tribunal. E o debate é o mesmo que atravessa os estúdios que usam IA generativa aos centenas de títulos: onde acaba a inspiração e começa a cópia em escala industrial?
Para quem faz música, a fuga tem um sabor amargo: a prova de que a máquina que “imagina qualquer canção” começou por ouvir as deles todas — sem pedir licença a ninguém.
Por Lucy Bennett
Imagem: Suno