Salvador Sobral volta a pôr os discos no Spotify sete meses depois de os ter tirado
O músico anunciou o regresso à plataforma que abandonou em fevereiro por causa do investimento de Daniel Ek em inteligência artificial de defesa. Como ouvinte, diz, o boicote mantém-se.
Salvador Sobral tirou toda a sua música do Spotify em fevereiro. Esta terça-feira, num vídeo publicado nas suas contas oficiais, anunciou que a vai pôr de volta.
A razão que dá é simples e pouco heroica, e ele próprio o diz: precisa de chegar às pessoas e precisa de vender bilhetes para os concertos. Chamou à plataforma “um Golias demasiado forte para enfrentar sozinho”.
Porque é que ele tinha saído
Em fevereiro, o músico retirou os álbuns por três motivos que foi acumulando. O primeiro é o dinheiro: o Spotify é, entre as grandes plataformas, aquela que paga pior aos autores. O segundo é o investimento de Daniel Ek, cofundador e presidente executivo do Spotify, na Helsing, uma empresa europeia de inteligência artificial para defesa — investimento feito através da Prima Materia, a sociedade de capital de risco do próprio Ek, e que já tinha levado os britânicos Massive Attack a fazer o mesmo em 2025. O terceiro é a música gerada por IA a entrar nas playlists de recomendação sem que o ouvinte seja avisado.
Nada disso mudou, e Sobral não finge que mudou. O que mudou foi a conta de chegada: ele contava com um boicote coletivo de colegas, músicos e público, e olhou para trás e não estava lá ninguém.
O que fica na mesma
Continua a boicotar como utilizador — usa o Qobuz, diz — mas a música volta ao catálogo. O single de avanço “A flor do recomeço” também lá estará, e o álbum com o mesmo nome sai em outubro: é o primeiro disco dele feito só de composições brasileiras, gravado em São Paulo com temas de Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Chico César, Céu, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Marcos Valle e Tim Bernardes.
Há aqui uma lição desconfortável sobre a economia do streaming, e não é sobre Salvador Sobral. É que uma plataforma com centenas de milhões de subscritores nem sente que um artista de dimensão média se foi embora, e o custo da saída recai por inteiro sobre quem sai. Foi a mesma tensão que atravessou o protesto de Lorde e de outros músicos contra a música feita por IA, e é a mesma que se ouve nos bastidores dos festivais portugueses, incluindo em Paredes de Coura, onde Sobral já atuou.
Quem quiser ouvi-lo sem passar pelo Spotify continua a poder fazê-lo. A diferença é que, a partir de agora, também não precisa.
Por Lucy Bennett
Imagem: Roger Dewayne Barkley / EuroVisionary, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)