Basil da Cunha filma a Reboleira há mais de 15 anos. Fez o último antes de o bairro ir abaixo
O Jacaré estreou esta quinta-feira nos cinemas portugueses depois de passar pela competição de Locarno. São 92 minutos em crioulo e português, à volta de 180 mil euros que desapareceram.
O Jacaré chegou esta quinta-feira aos cinemas portugueses. É o novo filme de Basil da Cunha, realizador luso-suíço nascido em Morges, e teve estreia mundial em agosto na competição internacional do Festival de Locarno — a terceira vez que entra nessa secção, depois de O Fim do Mundo, em 2019, e de Manga d’Terra, em 2023.
A história arranca com um assalto que corre mal. O carro despista-se dentro do bairro, o condutor é preso e os 180 mil euros roubados evaporam-se. A polícia fecha o perímetro, e é aí que o filme começa mesmo: dentro de uma rua cercada, com toda a gente a calcular onde estará o dinheiro e a inventar o resto. Entre os boatos, há o de que alguém viu um jacaré a passear pelas ruas.
Um bairro que está a acabar
A Reboleira não é cenário. Da Cunha filma-a desde 2009 e diz, na página da produtora, que ali trabalha há mais de quinze anos num bairro erguido por imigrantes cabo-verdianos nos arredores de Lisboa e que está marcado para demolição. A frase dele é simples: antes que desaparecesse, era preciso juntar toda a gente para uma última dança. É por isso que este filme se comporta como um encontro — um elenco coral, quase todo de moradores, onde ninguém é figurante.
Alexandra Sena, Alexandre da Costa Fonseca, Paulo César Lima Fonseca, Nelson Carvalho e Pedro Diniz seguram o filme. Carloto Cotta e Filipe Vargas aparecem em participações especiais. São 92 minutos falados em crioulo cabo-verdiano e português, numa coprodução entre Portugal, França e Suíça.
O tom não é o do costume
Quem esperava a gravidade dos filmes anteriores vai encontrar outra coisa. O realizador descreve O Jacaré como um filme de verão, luminoso, com a energia dos policiais americanos dos anos 90 e a música cabo-verdiana dos anos 70 a puxar por trás — comédia e liberdade mais do que denúncia. A sinopse, o elenco e as notas do realizador estão na página da produtora, incluindo a passagem sobre a demolição.
Não é o único sinal de vida do cinema português lá fora este ano: em agosto contámos que havia um restauro saído da Cinemateca entre os clássicos escolhidos por Veneza, também ele ligado à memória lusófona.
Para já, Basil da Cunha desenvolve uma série, Public Enemy, e prepara Furia, um filme de super-heróis nascido dos bairros. A Reboleira, essa, fica em 92 minutos.
Por Lucy Bennett
Imagem: Thera Production / O Jacaré