Há um restauro português entre os 19 clássicos que Veneza vai mostrar (e saiu da Cinemateca)
A Cinemateca Portuguesa assina o restauro de Udju Azul di Yonta, de Flora Gomes, filmado em 1992 na Guiné-Bissau. Estreia mundial na secção Venice Classics, em setembro.
Quando se fala de Portugal em Veneza, o reflexo é procurar um realizador na competição. Este ano a presença portuguesa está noutro sítio da ficha técnica: na linha que diz quem restaurou o filme.
A Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema assina o restauro de Udju Azul di Yonta, a segunda longa-metragem de Flora Gomes, rodada em 1992 numa coprodução entre a Guiné-Bissau, Portugal, França e Reino Unido. O filme é um dos 19 escolhidos para a secção Venice Classics do 83.º Festival de Veneza, de acordo com o alinhamento publicado pela Biennale. São 98 minutos, a cores, com estreia mundial da cópia restaurada.
O que é a Venice Classics
A secção existe desde 2012 e faz uma coisa simples de descrever e difícil de executar: mostra, em estreia mundial, os melhores restauros de clássicos concluídos no último ano por cinematecas, instituições culturais e produtoras de todo o mundo. É curada por Alberto Barbera, o diretor artístico do festival, com Federico Gironi.
A companhia é pesada. No mesmo alinhamento entram To Be or Not to Be de Ernst Lubitsch, Viaggio in Italia de Roberto Rossellini, Cul-de-sac de Roman Polanski, Cinzas e Diamantes de Andrzej Wajda e Minnie and Moskowitz de John Cassavetes. Os restauros vieram de casas como a Cineteca di Bologna, o Museo Nazionale del Cinema di Torino, a Studiocanal, a Universal e o China Film Archive. Entre elas, uma instituição portuguesa.
Um prémio decidido por estudantes
O vencedor de melhor filme restaurado é escolhido por um júri de 24 estudantes de cinema, indicados por professores de universidades italianas e da Ca’ Foscari de Veneza. Este ano é presidido pelo realizador Daniele Vicari, e é a décima terceira vez que a secção atribui o prémio desta forma.
Flora Gomes chegou a Veneza pela primeira vez com a sua longa-metragem de estreia, alguns anos antes de Udju Azul di Yonta. É um cinema que se faz em crioulo e que quase nunca aparece nas retrospetivas europeias — o que torna a escolha do restauro tão interessante quanto o restauro em si.
O festival decorre de 2 a 12 de setembro no Lido. Para quem quiser acompanhar o resto da programação, os 20 filmes que disputam o Leão de Ouro já são conhecidos.
Por Lucy Bennett
Imagem: Mike Dickison / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)