A Seleção voou no Mundial 2026 num avião das deportações do ICE — sem ninguém saber
A Seleção portuguesa viajou para Dallas, no Mundial 2026, num avião da GlobalX usado em voos de deportação do ICE, incluindo o caso dos venezuelanos enviados para a megaprisão de El Salvador.
Na véspera da final, o Mundial 2026 ganhou mais uma história incómoda — e desta vez toca-nos diretamente. A Seleção portuguesa viajou a 4 de julho para Dallas, para o jogo com a Espanha, num avião da Global Crossing Airlines, a GlobalX: uma companhia charter que passa boa parte do ano a fazer voos de deportação para o ICE, o serviço de imigração norte-americano.
Como se sabe que o avião da Seleção era usado em deportações?
Pelo número de registo, visível em vídeos da própria viagem. A investigação partiu de imagens onde se lê a matrícula do Airbus, e os registos de voo dessa aeronave mostram que ela fez voos de remoção de imigrantes no dia anterior e no dia seguinte ao transporte da comitiva portuguesa. Ou seja, não foi um avião que “já tinha sido” da operação de deportações — estava no ativo, com a equipa das Quinas pelo meio.
O currículo do aparelho é pesado. Em março de 2025 esteve envolvido no envio de mais de duzentos venezuelanos para a megaprisão de Cecot, em El Salvador, uma operação que avançou apesar de uma ordem judicial em contrário. Desde maio de 2023, a mesma aeronave soma mais de 1.580 voos de remoção. Antigos passageiros desses voos descrevem viagens algemados de pés e mãos, sem aviso às famílias e sem saberem para onde iam.
A FIFA sabia em que avião pôs Portugal?
Os fretamentos das seleções no torneio passam pela organização, e é aí que a polémica cresce: num Mundial disputado nos Estados Unidos em plena campanha de deportações em massa, a escolha de uma companhia contratada pelo ICE para transportar equipas era, no mínimo, evitável. E Portugal não foi caso único — a seleção francesa também usou voos da mesma operadora durante o torneio. O contraste faz-se sozinho: o mesmo torneio que deixou adeptos de fora por vistos e cauções transportou os jogadores em aviões da máquina de deportações.
Não há qualquer indicação de que a comitiva portuguesa soubesse do historial do aparelho — as fichas oficiais das viagens e dos jogos estão no site da FIFA, e nenhuma menciona, claro, a outra vida do avião. Fica a imagem: no Mundial dos recordes de bilheteira, até o transporte das equipas conta histórias que ninguém pediu.
Por Vasco Almada
Imagem: Acroterion / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)