A dívida das famílias portuguesas cresce ao ritmo mais rápido desde que há registo
O endividamento dos particulares subiu 9,9% em junho face ao mesmo mês de 2025, a maior variação anual desde o início da série, em dezembro de 2008. O crédito à habitação explica a maior parte. No total, famílias, empresas e Estado devem 894 mil milhões de euros.
O número grande é 894 mil milhões de euros. É quanto o conjunto das administrações públicas, das empresas e dos particulares devia no final de junho, mais 39,6 mil milhões do que em dezembro, segundo os dados que o Banco de Portugal divulgou esta sexta-feira.
Mas o número que conta é outro, e está mais abaixo no comunicado. Em junho, o endividamento dos particulares cresceu 9,9 por cento face ao mesmo mês de 2025. É a variação anual mais alta desde que a série começou, em dezembro de 2008. Nunca as famílias portuguesas se tinham endividado tão depressa desde que há registo.
De onde vem esse crescimento
Sobretudo de casas. No primeiro semestre, o endividamento dos particulares aumentou 8,2 mil milhões de euros, dos quais 7,2 mil milhões perante o setor financeiro. E dentro desses, 5,9 mil milhões vieram por via do crédito à habitação.
A leitura é direta. Com os preços das casas a bater recordes sucessivos, quem compra pede emprestado mais dinheiro por cada casa, e o stock de dívida sobe mesmo quando o número de transações não acompanha. O calendário também ajudou: durante boa parte do ano as taxas de juro estiveram baixas o suficiente para atrair quem estava à espera. Essa janela está a fechar-se, com a Euribor a seis meses em máximos de vinte e um meses e a taxa a doze meses a passar a fasquia dos três por cento pela primeira vez em dois anos.
O Estado também pediu mais
Do lado público, o endividamento subiu 22,6 mil milhões no semestre, para 393,6 mil milhões. O aumento veio quase todo do exterior, com 15,3 mil milhões explicados pelo investimento líquido de não residentes em títulos de dívida pública portuguesa. Traduzindo: houve estrangeiros a comprar dívida portuguesa, o que também é um sinal de confiança.
O setor privado, empresas e particulares somados, fechou junho em 500,3 mil milhões, mais 17 mil milhões do que em dezembro. As empresas privadas contribuíram com 8,8 mil milhões e cresceram 4,2 por cento em termos homólogos, um ritmo bem mais contido do que o das famílias.
E em percentagem da economia
O endividamento do setor não financeiro passou de 278,5 para 282,7 por cento do produto interno bruto no semestre. Ou seja, a dívida cresceu mais depressa do que a economia. A subida repartiu-se entre o setor público, de 120,9 para 124,5 por cento, e o privado, de 157,6 para 158,2.
Nada disto é uma emergência por si só. Portugal tem vindo a reduzir o peso da dívida pública há vários anos e o rácio continua longe dos máximos da crise. Mas o número dos particulares é novo, é o mais alto de sempre da série, e chega precisamente no momento em que o custo do dinheiro voltou a subir. Vale a pena olhar para ele. Acompanhamos a evolução das taxas e dos mercados no nosso tracker.
Por Beatriz Mota
Imagem: Béria Lima de Rodríguez / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)