A indústria vendeu mais 6,5% em junho e mesmo assim empregou menos gente
O volume de negócios subiu 6,5% em termos homólogos, puxado pelo mercado interno (mais 9,0%) e pela energia (mais 11,6%). No mesmo mês, o emprego caiu 0,7% e as remunerações subiram 5,6%.
A indústria portuguesa vendeu mais em junho. O índice de volume de negócios subiu 6,5% em termos homólogos, segundo os dados que o INE publica nos índices de negócios na indústria, e no segundo trimestre inteiro as vendas cresceram 7,5%, contra apenas 1,4% no trimestre anterior.
Antes de festejar, convém ler a letra pequena. Boa parte desta subida é preço, não é volume: o próprio instituto atribui a aceleração trimestral em larga medida à evolução dos preços. E sem o agrupamento da energia, o crescimento cai de 6,5% para 5,1%.
Quem puxou o carro
O mercado interno. As vendas com destino ao mercado nacional cresceram 9,0% e contribuíram com 5,7 pontos percentuais para a variação total, quase toda ela. Os mercados externos abrandaram 2,5 pontos e ficaram num crescimento de 2,1%, o que dá um contributo de apenas 0,8 pontos.
Por agrupamento, os bens intermédios e a energia dominam, com 2,9 e 2,5 pontos percentuais de contributo e subidas de 9,0% e 11,6%. Os bens de investimento cresceram 3,6% e os de consumo apenas 1,6%, o que é revelador: são as famílias que estão a gastar menos, não as fábricas.
O número que ninguém publicita
No mesmo mês em que a faturação subiu 6,5%, o emprego na indústria caiu 0,7% e as horas trabalhadas recuaram 0,3%. As remunerações, em contrapartida, subiram 5,6%, uma aceleração de um ponto face a maio.
Traduzido: menos pessoas, a trabalhar menos horas, a receber mais, num setor que fatura mais. Pode ser produtividade a melhorar, pode ser automação, pode ser simplesmente inflação a passar para os preços e para os salários ao mesmo tempo. Um mês não decide.
O padrão encaixa, ainda assim, num verão em que a procura interna tem segurado a economia — foi o mercado nacional que segurou o turismo em junho, com as dormidas de estrangeiros a cair. Duas estatísticas diferentes a contar a mesma história: quem está a puxar por Portugal, neste momento, mora cá.
Por Beatriz Mota
Imagem: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)