Este supercomputador vai ser montado no Rio Grande do Norte (e o objetivo é treinar IA a falar português)
O Governo brasileiro anunciou a 20 de agosto, em Macaíba, um concurso de mil milhões de reais para o PAX RN, uma máquina apontada aos 7.200 petaflops. Ao lado, um polo de supercomputação no Rio com a Huawei e a iFlytek, dedicado a modelos de linguagem em português.
Há uma corrida discreta a acontecer do outro lado do Atlântico e ela diz respeito à língua que se fala em Portugal. Na quinta-feira, no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, o Governo brasileiro anunciou um concurso público de mil milhões de reais para adquirir o PAX RN, um supercomputador apontado aos 7.200 petaflops — cerca de 7,2 mil biliões de operações por segundo, o que colocaria a máquina entre as dez mais potentes do planeta.
A parte que interessa a quem escreve, lê e pesquisa em português está no que a máquina vai fazer. O plano brasileiro passa por um segundo polo de supercomputação no Rio de Janeiro, operado pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa em parceria com a Huawei e a iFlytek, orçado em 1,2 mil milhões de reais ao longo de cinco anos e dedicado ao desenvolvimento de modelos de linguagem em português. Há ainda cerca de 125 milhões de reais reservados, em parceria com Espanha, para fabrico de chips de arquitetura aberta RISC-V.
Porque é que isto importa deste lado
Praticamente todos os grandes modelos de linguagem que usamos hoje foram treinados sobretudo em inglês, com português a entrar como língua secundária e frequentemente na variante brasileira. Isso tem consequências banais e diárias: uma resposta que troca “camião” por “caminhão”, um resumo jurídico que aplica conceitos do direito brasileiro a uma questão portuguesa, uma transcrição que tropeça num sotaque do Norte. Um investimento desta escala em modelos treinados em português muda o volume de dados disponível, ainda que não resolva por si a questão da variante europeia.
O MCTI já tinha lançado, em dezembro de 2025, a iniciativa SoberanIA para desenvolver modelos avançados de IA em língua portuguesa, e em abril de 2026 assinou com o Serpro e a iFlytek um protocolo para modelos adaptados ao português brasileiro sob controlo público. O anúncio de quinta-feira é a infraestrutura que faltava a essas promessas.
Tudo isto se enquadra no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê 23 mil milhões de reais entre 2024 e 2028. Portugal segue outro caminho, mais pequeno e mais europeu, do género do novo centro nacional de computação avançada em Guimarães. São escalas diferentes, e a diferença de escala é precisamente o ponto: quando a maior parte do corpus em português for treinada e alojada no Brasil, é a norma brasileira que fica por defeito.
O edital do PAX RN ainda tem de ser publicado no Diário Oficial da União. Até lá, o número que interessa é o outro: mil milhões de reais para uma máquina que vai passar boa parte da vida a aprender a nossa língua.
Por Oliver Grant
Infografia: Tugadaily · dados do Governo do Brasil (PBIA)