Esta empresa de Coimbra vigia satélites em órbita e acaba de encaixar 15,6 milhões
A Neuraspace juntou 9,6 milhões do PRR a 6 milhões de capital privado da Lince Capital, Explorer Investments e Armilar. O dinheiro vai para a rede de sensores óticos e para a linha de defesa, a NeuraspaceDEF.
Há uma empresa em Coimbra cujo trabalho é saber, a cada momento, onde estão mais de 600 satélites e o que vem a caminho deles. Chama-se Neuraspace, nasceu em 2020, e acaba de fechar uma ronda de 15,6 milhões de euros.
O dinheiro vem de dois sítios. Nove vírgula seis milhões chegam do Plano de Recuperação e Resiliência; os restantes seis milhões são capital privado, numa operação liderada pela Lince Capital, pela Explorer Investments e pela Armilar Venture Partners.
O que é que a Neuraspace faz, afinal
Gestão de tráfego espacial e vigilância espacial, com inteligência artificial a fazer o trabalho pesado. Na prática: a órbita terrestre baixa está cada vez mais entupida, entre satélites ativos, satélites mortos, andares superiores de foguetões e fragmentos de colisões antigas. Alguém tem de calcular quais destes objetos se vão aproximar perigosamente uns dos outros, e avisar os operadores a tempo de desviarem os satélites. É esse o serviço.
O problema não é teórico. A Agência Espacial Europeia contabiliza milhões de fragmentos em órbita, do tamanho de um milímetro para cima, e lembra que estes objetos andam a cerca de dez quilómetros por segundo. A essa velocidade, um pedaço de um centímetro embate com a energia de um carro pequeno a 40 quilómetros por hora. A maior parte dos alertas de aproximação acaba por não dar em nada, e é aí que está o valor do serviço: distinguir os poucos que dão.
A ronda serve três frentes: reforçar a plataforma de IA, alargar a rede própria de sensores óticos e acelerar a NeuraspaceDEF, a linha criada para clientes governamentais e de defesa. Essa parte tem crescido depressa, com contratos que já incluem a Força Aérea Portuguesa e a NATO.
Vale a pena notar de onde vem metade do cheque. É dinheiro do PRR a aterrar numa empresa de tecnologia profunda, do género que costuma demorar anos a dar retorno — e é exatamente o argumento de quem defende que o ecossistema português de startups precisa menos de barulho e mais de prova. Uma empresa de Coimbra a vender vigilância orbital à NATO serve bem de prova.
Por Oliver Grant
Imagem: NASA Scientific Visualization Studio (domínio público)