Os livros que circulam em grupos de Telegram e WhatsApp custam mais de 75 milhões às editoras
Romances, manuais escolares e audiolivros são partilhados em ficheiro dentro de grupos fechados de mensagens. O setor livreiro português vai lançar até ao final do ano um estudo para medir o tamanho real do buraco.
A pirataria de livros deixou de passar por sites obscuros e mudou-se para onde toda a gente já está. Em Portugal, romances, manuais escolares e audiolivros circulam hoje em ficheiro dentro de grupos de Telegram e de WhatsApp, e a conta que o setor faz vai além dos 75 milhões de euros perdidos pelas editoras.
A mecânica é simples e é isso que a torna difícil de travar. Alguém compra ou digitaliza um título, atira o PDF ou o EPUB para um grupo com centenas de membros, e o ficheiro replica-se em cadeia para outros grupos. Não há servidor para desligar nem domínio para bloquear — há conversas privadas, que nem os operadores das aplicações inspecionam por defeito.
Onde dói mais
O manual escolar é o caso mais óbvio, e agora é a época. Uma família com dois filhos no básico gasta uma pequena fortuna em livros no arranque de setembro, e a tentação de pedir o ficheiro a alguém do grupo de pais é imediata. O efeito não fica só nas editoras: chega às livrarias de bairro, que vivem em boa parte desse pico anual.
Os audiolivros são o outro alvo em crescimento, por serem leves, fáceis de partilhar e cada vez mais procurados. E os autores portugueses, que já operam num mercado pequeno, veem uma fatia das vendas evaporar-se sem deixar rasto contabilístico.
Os livreiros vão avançar até ao final do ano com um estudo de impacto para medir a dimensão real do fenómeno — o número dos 75 milhões é uma estimativa, e o setor quer substituí-lo por dados. As posições e iniciativas do setor são publicadas nas notícias da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.
Não é a primeira vez este ano que o Telegram aparece no centro de uma discussão sobre o que circula nas suas conversas. Em agosto, a Apple chegou a retirar a aplicação da App Store em todo o mundo antes de a repor poucas horas depois.
Por Oliver Grant
Imagem ilustrativa · Foto: Marian Mirea / Pexels