Portugal tem das melhores redes da Europa. Então porque é que só 59% da população domina o básico digital?
O relatório da Década Digital dá 97% de cobertura de rede de altíssima capacidade a Portugal, contra 85,5% na média da UE. Nas competências digitais básicas são 59,2%, abaixo dos 60,4% europeus.
A resposta curta é que construir rede e ensinar pessoas a usá-la são dois trabalhos diferentes, e Portugal só é bom num deles.
O relatório anual da Comissão Europeia sobre a Década Digital saiu com Portugal em bom lugar naquilo que se enterra no chão. A cobertura de redes de altíssima capacidade chegou a 97%, depois de subir 2,5 pontos em 2025, contra uma média europeia de 85,5%. O 5G alcança 65,2% das casas. E, ao contrário do que costuma acontecer, a cobertura no interior e nas zonas rurais está acima da média da UE, o que para um país com o mapa que temos não é detalhe pequeno.
Depois vem a parte incómoda. Só 59,2% dos portugueses têm pelo menos competências digitais básicas. A média da União é 60,4%, portanto a distância não é dramática. O problema é a meta: 80% até 2030, e faltam mais de vinte pontos para lá chegar.
Ter fibra não é o mesmo que saber usá-la
É a distinção que o relatório empurra para a frente. Uma casa com rede de altíssima capacidade e uma pessoa que não consegue tratar de uma coisa simples num portal público são compatíveis, e em Portugal são-no com frequência.
Isso trava tudo o que vem a seguir. A digitalização das empresas é o outro ponto onde o país fica atrás, e é difícil digitalizar uma empresa quando metade das pessoas contratáveis não tem o essencial. Cobertura resolve-se com obra e dinheiro. Competências resolvem-se com anos.
O aviso que ninguém quer ler
Há um alerta no fim do relatório que merece mais atenção do que costuma ter: quase metade do financiamento público previsto nos planos nacionais deverá terminar até ao final de 2026. Traduzido, o dinheiro que pagou a última década de infraestrutura está a acabar, e não há garantia de que o que se segue seja financiado com a mesma folga.
Vale a pena ler a ficha de país que a Comissão publicou sobre Portugal, com os indicadores um a um. Entretanto, o setor tecnológico português continua a crescer por conta própria — a Neuraspace, de Coimbra, acaba de encaixar 15,6 milhões para vigiar satélites em órbita. Talento não falta. Falta é escala.
Por Oliver Grant
Infografia: Tugadaily · dados Comissão Europeia