A economia acelerou no segundo trimestre, diz o ministro das Finanças — e a fatura do PRR é que trava o resto
Miranda Sarmento garantiu no Parlamento que consumo, investimento e exportações aceleraram no segundo trimestre de 2026. O senão: os empréstimos do PRR comem a margem orçamental.
Se andava à espera de más notícias sobre a economia, esta quarta-feira não trouxe nenhuma. Miranda Sarmento foi ao Parlamento e disse que os dados do segundo trimestre são francamente positivos, com aceleração do consumo, do investimento e das exportações. A estimativa rápida do INE só sai no fim do mês, por isso ainda é uma promessa e não um facto — mas é a leitura do próprio Governo, e essa costuma ser conservadora quando pode.
O retrato que o ministro deixou na Comissão de Orçamento e Finanças é o de um país que continua a puxar por três motores ao mesmo tempo. O turismo, diz, mantém-se muito dinâmico. As exportações crescem, e crescem tanto em tecnologia como em serviços. E o mercado de trabalho está resiliente, com o desemprego já abaixo dos 6% e criação de emprego a sério.
Então porque é que não há dinheiro para gastar?
Porque a parte boa e a parte apertada vêm da mesma origem. O PRR é hoje um dos principais motores do aumento do investimento público — e é também aquilo que come a folga. A execução do plano implica um montante muito elevado de empréstimos, e esses empréstimos reduzem a margem que sobra para responder a um choque inesperado, seja uma tempestade ou a guerra no Médio Oriente.
Traduzido: o investimento público que está a ajudar o PIB é, em boa parte, dívida com data marcada. Por isso é que o ministro repete que 2026 continua a ser um exercício orçamental exigente mesmo quando os números vêm bons. É um discurso incómodo de fazer — ninguém gosta de dar uma boa notícia e logo a seguir explicar porque é que ela não chega para nada.
O que é que isto muda na carteira de quem trabalha?
Pouco, este ano, e é aí que está a discussão política. O Governo mantém a previsão de um saldo orçamental equilibrado em 2026 e aponta ao mesmo tempo para um crescimento na ordem dos 2%. Para chegar lá, afastou por agora um imposto sobre lucros excessivos, mais uma descida do IRS e a assunção de um suplemento às pensões. Ou seja: os números melhoram, mas o alívio fica para depois.
Vale a pena guardar isto para amanhã. O debate do Estado da Nação é quinta-feira, e a oposição já disse que vai centrar tudo no custo de vida — o que garante que estes mesmos dados vão ser lidos ao contrário por metade da sala. E convém lembrar que isto encaixa num arranque de ano em que o PIB já tinha crescido 2,2% no segundo trimestre segundo as contas da Católica, feitas por fora do Governo.
A estimativa rápida do INE, no fim do mês, é que decide quem tinha razão. Até lá, as contas oficiais estão no portal do Governo.
Por Beatriz Mota
Imagem: Agência Lusa / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)