Um homicídio de 1949 que nunca foi resolvido deu o Prémio Goncourt a Philippe Jaenada
O escritor francês venceu o Goncourt 2026 com «L'Inconnue du quai de Javel», 528 páginas sobre a morte de uma modelo de Montparnasse. Ganhou por seis votos contra três; o Renaudot foi para François-Henri Désérable.
Philippe Jaenada é o vencedor do Prémio Goncourt 2026, o mais famoso prémio literário de França. A Académie Goncourt anunciou-o esta terça-feira, 3 de novembro, no restaurante Drouant, em Paris, como manda a tradição. O livro premiado chama-se «L’Inconnue du quai de Javel» e saiu pela Flammarion em agosto.
A votação não foi renhida. Jaenada ganhou por seis votos contra três a Sylvain Prudhomme, autor de «De l’autre côté du lac». Os outros finalistas eram Yannick Haenel e Clémentine Mélois.
Uma morte sem culpado
O romance parte de um caso verdadeiro. A 6 de setembro de 1949, Louise Cansot, de 29 anos, modelo de pintores em Montparnasse, foi encontrada morta no cais de Javel, à beira do Sena, sem sapatos e sem mala. Houve quatro suspeitos. Seis meses depois o processo foi arquivado, e ninguém respondeu pela morte.
Jaenada reabre o dossiê quase oitenta anos depois. Para se preparar, leu os 75 romances de Maigret escritos por Simenon (um método, chamemos-lhe assim), foi aos arquivos e aos jornais da época e visitou os locais. No fim propõe uma hipótese sobre o assassino, mas o livro interessa-se tanto por quem Louise era em vida como por quem a matou.
São 528 páginas e custam 23 euros em França. Antes do anúncio já se tinham vendido perto de 60 mil exemplares, o que diz muito sobre o que aí vem: o prémio em si é um cheque simbólico de dez euros, mas a cinta vermelha do Goncourt na capa costuma multiplicar as vendas.
Quem é Jaenada
Nasceu em 1964, em Saint-Germain-en-Laye, e estreou-se em 1997 com «Le Chameau sauvage», que lhe valeu o Prémio de Flore. A viragem para o crime real veio com «Sulak» (2013), sobre um assaltante célebre dos anos 80, e continuou em «La Petite Femelle» e «La Serpe», este último Prémio Femina em 2017. A marca dele é a investigação obsessiva contada na primeira pessoa, com digressões e humor pelo meio.
No mesmo dia, o Prémio Renaudot foi para François-Henri Désérable, por «Le Palais». Jaenada sucede a Laurent Mauvignier, vencedor de 2025.
Não encontrámos edição portuguesa anunciada. Para quem escreve ficção por cá, entretanto, há bolsas de 15 mil euros da DGLAB abertas até 2 de dezembro.
Por Lucy Bennett
Imagem: ActuaLitté / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)