78% dos portugueses leram um livro em 2025. A percentagem que comprou algum caiu
O estudo da APEL com a Nielsen GfK põe o índice de leitura no valor mais alto em três anos, 78%, contra 73% em 2023. No mesmo período, a fatia de portugueses que comprou pelo menos um livro desceu de 65% para 62% e a média por comprador caiu de 7,5 para 6,9 livros.
Lê-se mais. Compra-se menos. As duas frases saem do mesmo estudo, apresentado esta semana na abertura do Book 2.0, no Centro Cultural de Belém, e é a distância entre elas que interessa.
Os números primeiro. O índice de leitura subiu de 73% em 2023 para 76% em 2024 e 78% no ano passado — é a fatia de portugueses com 15 ou mais anos que diz ter lido pelo menos um livro nesse ano, e é o valor mais alto do período. Cada leitor contabilizou em média oito livros em 2025, acima dos 7,2 de 2024.
Agora o outro lado. A percentagem que comprou pelo menos um livro ficou nos 62%, abaixo dos 65% de 2023. E a média de livros por comprador não parou de descer: 7,5 em 2023, 7 em 2024, 6,9 em 2025. Ou seja, entrou gente nova na leitura sem entrar gente nova nas caixas registadoras.
Isto não contradiz o mercado, e é aí que está o truque de leitura. Medido pelo painel de retalho, o setor está cerca de 17% acima de 2023. O dinheiro cresceu; o número de livros que cada família leva para casa não acompanhou.
Por onde é que os livros circulam então
Aqui está a parte que merece mais atenção do que teve. Entre os leitores digitais, 68% recorrem a conteúdos gratuitos. Desses, 64% usam plataformas de armazenamento em nuvem, 30% o WhatsApp e 15% o Telegram.
Repare no que isto descreve. Não é um site pirata escondido num canto da internet — é um ficheiro que passa de telemóvel para telemóvel num grupo de amigos, no mesmo sítio onde se combinam jantares. A própria associação reconhece que alguns destes canais servem usos perfeitamente legítimos, do empréstimo autorizado ao acesso aberto, e é justamente isso que torna o problema difícil de atacar: a fronteira não está numa plataforma, está num hábito.
O tempo, esse
O estudo também pediu às pessoas que dissessem o que fazem nos tempos livres. Conviver com amigos lidera com 91%, seguem-se as redes sociais com 85%, o cinema e o streaming com 75% e o desporto com 66%. A leitura por lazer aparece a seguir, com 62%.
Entre quem não lê, o obstáculo mais apontado não é a falta de tempo. É a falta de interesse, com 43%, à frente da falta de tempo (38%) e da preferência por outras atividades (33%).
O setor tem propostas na mesa — reforço do Cheque-Livro, subida da dedução em IRS do IVA suportado na compra de livros, apoios à abertura de livrarias, uma Capital Portuguesa do Livro rotativa. São todas medidas do lado da oferta. O estudo, lido com atenção, diz que o problema também está do lado do tempo e da atenção, que é bem mais difícil de subsidiar.
Entretanto, há sinais de que o país continua a aparecer quando o livro sai à rua: a Festa do Livro em Belém juntou 400 autores e 123 bancas com entrada livre, e a votação das Novas 7 Maravilhas mostrou que mobilizar portugueses à volta de cultura ainda funciona. Falta traduzir isso em vendas.
Por Lucy Bennett
Infografia: Tugadaily · dados APEL / Nielsen GfK