Listas de espera do SNS: pequenas cirurgias saem da contagem e médicos acusam Governo de maquilhar números
Uma portaria tira as pequenas cirurgias da lista de inscritos para cirurgia e novas regras de pagamento levaram hospitais a cancelar produção adicional. A Ordem dos Médicos fala em redução artificial; o Governo nega.
As listas de espera para cirurgia no SNS estão no centro de uma nova guerra entre o Ministério da Saúde e os médicos — e, desta vez, a discussão não é só sobre quanto tempo se espera, mas sobre quem conta como estando à espera.
O que mudou nas listas de espera do SNS?
Uma portaria publicada no final de junho determina que os procedimentos classificados como pequena cirurgia deixam de exigir inscrição na Lista de Inscritos para Cirurgia, a LIC. Na prática, cerca de 300 mil doentes que aguardam uma pequena cirurgia podem desaparecer da lista oficial sem terem sido tratados. A Ordem dos Médicos acusa o Governo de promover uma redução artificial dos inscritos: os números baixam no papel, mas os doentes continuam à espera, agora fora dos circuitos formais de programação e prioridade. O Governo garante que não haverá qualquer maquilhagem das listas e que os doentes continuarão a ser operados, com estes atos pagos como sessões de hospital de dia ou ambulatório.
Porque estão hospitais a cancelar cirurgias?
Ao mesmo tempo, mudaram as regras de pagamento da chamada produção adicional — as cirurgias extra feitas fora do horário normal para aliviar as listas. Nas operações com dispositivos médicos implantáveis, como próteses, o custo do material deixou de contar para o valor de referência que serve de base ao pagamento das equipas. Resultado: desde 1 de julho, vários hospitais cancelaram cirurgias adicionais, e sindicatos médicos avisam que quem paga a fatura são os doentes. O diploma e as regras oficiais podem ser consultados no Diário da República.
O braço-de-ferro chega num verão em que o SNS já estava sob pressão, com mais de 1,6 milhões de utentes sem médico de família. Entre números que baixam por decreto e cirurgias que param por causa do preço das próteses, o desfecho desta guerra vai medir-se onde sempre se mediu: no tempo que um doente espera para ser operado.
Imagem: Ivendrell / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)