Entre os 25 e os 34 anos, 70% da geração de 1967-76 já tinha casa própria. A de 1987-96 fica-se pelos 42%
Os números da Pordata, com base nos Censos, mostram que os portugueses nascidos entre 1987 e 1996 são donos da casa onde vivem na mesma proporção que a geração nascida entre 1947 e 1956 era em 1981. Pelo meio, os preços subiram 41,5% entre 2020 e 2025, a maior subida entre os países da UE onde as casas encareceram.
Ter casa aos trinta já foi a regra. Entre os portugueses nascidos de 1967 a 1976, 70% eram donos da casa onde viviam quando tinham entre 25 e 34 anos. Para quem nasceu entre 1987 e 1996, a mesma idade chegou com 42%.
O número é da primeira edição do “Factualmente”, o novo formato da Pordata (a base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos), dedicada à habitação e publicada a 23 de outubro. Cruza os Censos de cinco décadas, e a curva que sai daí é quase uma montanha.
A montanha, geração a geração
Os nascidos entre 1947 e 1956 tinham casa própria em 42% dos casos quando chegaram aos 25-34 anos, ou seja, no Censo de 1981. A geração seguinte subiu para 55%. A de 1967-76 bateu os 70%, no auge do crédito barato dos anos 2000. Depois começou a descida: 61% para os nascidos entre 1977 e 1986, e de novo 42% para a geração que hoje anda pelos trinta.
Ou seja, os jovens adultos de 2021 voltaram ao ponto de partida de 1981. A diferença está no que uma casa custa hoje.
O que mudou no preço
Segundo a mesma publicação, os preços da habitação em Portugal subiram 41,5% entre 2020 e 2025, a maior subida entre os 18 países da União Europeia onde as casas encareceram nesse período. Desde 2010, a subida acumulada é de 81,9%, a terceira maior entre 23 países.
A construção não acompanhou. Fizeram-se cerca de 27 mil casas novas em 2025, mais 11% do que no ano anterior, mas menos de um quarto do que se construía no início dos anos 2000. Quem segue o mercado mês a mês já tinha visto este desfasamento no nosso acompanhamento dos preços das casas, onde os números do INE mostram o preço mediano a subir 18,4% num ano.
Um país de proprietários, mesmo assim
O retrato não é só de quem ficou de fora. Em 2024, 73% das famílias portuguesas viviam em casa própria, contra 65% na média da zona euro, o que põe Portugal em nono lugar entre 20 países. A habitação social, essa, ficava por 1% do parque em 2021, segundo a OCDE, à frente apenas da Lituânia.
E a razão para comprar raramente foi romântica. Das famílias que compraram casa entre 2011 e 2020, 39% disseram que o fizeram porque a prestação ficava mais barata do que a renda, 36% viram ali um bom investimento e só 24% compraram por preferirem ser donas, independentemente do retorno.
É essa conta (prestação contra renda) que hoje deixou de bater certo para muitos dos nascidos depois de 1987.
Infografia: Tugadaily · dados Pordata (Censos)