A China já está a fabricar as suas próprias máquinas de litografia e é a Europa que fica mais nervosa
Pequim arrancou com produção em escala de máquinas de litografia DUV por imersão, o equipamento onde a holandesa ASML manda. Um relatório financiado pela UE fala num futuro sombrio para os chips europeus.
Durante anos, a resposta curta para explicar porque é que a China não conseguia fabricar chips de topo cabia numa palavra: litografia. É a máquina que desenha os circuitos no silício, custa dezenas de milhões, e o mundo praticamente inteiro compra-a à holandesa ASML. Sem ela não há fábrica que valha.
Essa resposta curta acaba de ficar mais complicada. A China começou este ano a produzir em escala máquinas nacionais de litografia DUV por imersão — não são as EUV de última geração, mas são o cavalo de batalha da indústria. O plano público aponta para cinco unidades até ao final de 2026 e vinte ao longo de 2027.
Porque é que a litografia é tão decisiva nos chips?
Porque é o gargalo. Pode ter-se silício, desenho de circuitos e dinheiro para uma fábrica, mas sem litografia não se imprime nada. Foi por isso que os controlos de exportação ocidentais dos últimos anos apontaram exatamente a este equipamento: bloquear a máquina é bloquear tudo o resto a montante. Vinte unidades por ano não substituem a ASML — a distância tecnológica continua enorme, sobretudo no topo da gama — mas mudam o cálculo. Uma dependência absoluta passa a ser uma dependência relativa, e as dependências relativas negoceiam-se.
O que é que isto muda para a Europa?
Muda o lado errado da conta. Um relatório financiado pela União Europeia, divulgado este mês, descreve um futuro sombrio para o setor europeu de semicondutores, apanhado entre os controlos de exportação chineses sobre matérias-primas críticas, a dependência tecnológica dos Estados Unidos e a sua própria fragilidade estrutural. A Europa tem a joia da coroa — a ASML — e pouca capacidade de fabrico de ponta em solo europeu.
Bruxelas conhece o diagnóstico. Em junho a Comissão apresentou um pacote de soberania tecnológica com uma segunda versão da lei dos chips e uma proposta dedicada à nuvem e à inteligência artificial, partindo do princípio de que os componentes ligados à IA valerão mais de 70% do mercado de semicondutores em 2030. O enquadramento oficial está publicado na página da Comissão Europeia sobre o European Chips Act.
E Portugal, onde entra nisto?
Entra pela periferia, mas entra. O país tem apostado em infraestrutura digital e em atrair capacidade de computação — o cabo submarino Nuvem da Google a aterrar em Sines é o exemplo mais visível. Só que datacenters e cabos correm sobre chips que ninguém na Europa fabrica em quantidade suficiente. É uma boa altura para reparar em quem faz as máquinas, e não apenas em quem as usa.
Por Oliver Grant
Imagem: A ansems / Wikimedia Commons (domínio público)