O cabo Nuvem da Google já chegou a Sines e liga Portugal aos Estados Unidos por baixo do mar
O cabo submarino Nuvem, da Google, aterrou em Sines. São cerca de 7.000 quilómetros de fibra até à Carolina do Sul, com passagem pelos Açores e pelas Bermudas, e a MEO entrou como parceira nacional.
Há um cabo novo enterrado na areia de Sines e quase ninguém deu por ele. Chama-se Nuvem, é da Google, e acabou de fazer a parte mais difícil do percurso: atravessar o Atlântico e aterrar em solo português.
O que é o cabo Nuvem da Google?
É um cabo submarino de fibra ótica com cerca de 7.000 quilómetros, anunciado em 2023 e agora finalmente ligado do lado de cá. Leva 16 pares de fibra e foi desenhado para transportar até 384 terabits por segundo, o que em linguagem de sala de estar dá para dizer que passa por ali muito mais tráfego do que Portugal inteiro consome. O traçado sai de Sines, faz escala nos Açores e nas Bermudas e vai terminar em Myrtle Beach, na Carolina do Sul, onde a ponta americana já tinha sido puxada para terra em maio.
Não é o primeiro cabo da Google por cá. O Equiano, que liga a Europa a África, passou a usar Portugal como porta de entrada em 2022, e a empresa está a construir estações de amarração em Lagoa, na ilha de São Miguel, para receber o Nuvem e um segundo sistema, o Sol.
Porque é que o cabo foi aterrar a Sines?
Por geografia e por rotina. Sines é o ponto do continente europeu mais a ocidente com porto de águas profundas e infraestrutura pesada já instalada, o que faz dele o sítio óbvio para quem quer o caminho mais curto entre a Europa e a América. A cidade tem vindo a acumular esse papel de tomada elétrica do Atlântico, entre o terminal de contentores e a plataforma logística do porto, e agora acrescenta-lhe fibra.
A MEO entrou no projeto como investidora e parceira nacional, o que significa que parte da capacidade fica em mãos portuguesas em vez de ser apenas tráfego de passagem.
O que é que isto muda para quem vive cá?
No dia a dia, pouco se nota. O que muda é a resiliência: quantos mais caminhos existirem entre a Europa e os Estados Unidos, menos um acidente com uma âncora ou uma avaria a meio do oceano consegue estragar. E muda o argumento comercial de Portugal para atrair centros de dados, um negócio onde a proximidade à fibra vale tanto como o preço da eletricidade — a mesma lógica que levou a Microsoft a financiar centros de dados europeus da Mistral.
O sistema ainda não está a transportar tráfego comercial. Falta a fase de testes e certificação, o passo aborrecido que separa um cabo instalado de um cabo ao serviço.
Por Oliver Grant
Imagem: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)