A luz barata da noite vai começar meia hora mais tarde (mas só em 2027)
A ERSE aprovou os novos períodos horários da eletricidade. Na tarifa bi-horária o vazio passa a começar às 22h30 e a acabar às 8h30, meia hora mais tarde nas duas pontas. Muda para 500 mil casas entre julho e dezembro de 2027, e os seis milhões com tarifa simples também vão ver o contador mexer.
Se tem tarifa bi-horária, provavelmente já interiorizou a regra: a partir das dez da noite, pode pôr a máquina a trabalhar. Essa regra vai mudar. Não muito, mas o suficiente para dar cabo do hábito.
A ERSE fechou em 31 de julho a revisão dos períodos horários da eletricidade em Portugal continental, e o resumo cabe em duas linhas. No ciclo diário da tarifa bi-horária, o período de vazio deixa de começar às 22h00 e passa a começar às 22h30. Em compensação, deixa de acabar às 8h00 e passa a acabar às 8h30. Nos dias úteis do ciclo semanal a mesma meia hora aplica-se nas duas pontas: o vazio começa às 0h30 em vez da meia-noite e termina às 7h30 em vez das 7h00.
Para quem tem tarifa tri-horária, e para as empresas em tetra-horária, a mudança é de outra natureza. Desaparecem as horas de ponta de manhã e ao início da tarde, e a ponta concentra-se ao fim do dia. As durações diárias de cada período mantêm-se todas — ponta, cheias, vazio normal e super vazio. O que muda é onde começam e onde acabam.
Porquê mexer nisto agora
A explicação da ERSE é o sistema elétrico ter deixado de se comportar como quando estes horários foram desenhados. Com a produção renovável descentralizada a crescer, o perfil real de utilização das redes deslocou-se, e os períodos tarifários deixaram de coincidir com ele. Encaixa no retrato que já traçámos quando Portugal apareceu entre os quatro países da UE com mais eletricidade renovável: quando o sol e o vento entram a horas diferentes, a hora barata também tem de mudar de sítio. O argumento seguinte é de carteira: horários mais alinhados com a utilização real adiam investimento em redes, e o custo das redes está na fatura de toda a gente.
Há ainda duas simplificações. Passa a existir um único ciclo diário ao longo do ano, sem a distinção entre hora legal de inverno e de verão, e um único ciclo semanal.
Quando é que isto chega à sua fatura
Nada muda este ano nem no próximo verão. As instalações empresariais e industriais mudam todas de uma vez, a 1 de abril de 2027. Os clientes domésticos e pequenos negócios com opção bi ou tri-horária mudam entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2027, e não têm de fazer nada: a alteração é feita à distância pelo operador de rede através do contador inteligente, com 99% dos clientes de baixa tensão normal já equipados. Só em casos residuais aparecerá um técnico à porta.
E aqui está a parte que passou despercebida. Os cerca de seis milhões de clientes com tarifa simples não são abrangidos pela mudança de horários, mas os contadores vão ser atualizados na mesma, entre 1 de novembro de 2027 e 31 de março de 2030, para passarem a mostrar leituras por período horário. Traduzindo: quem sempre desconfiou que a bi-horária não compensava no seu caso vai finalmente poder confirmar com os seus próprios números em vez de adivinhar. Quem não quiser esperar pela sua vez pode pedir à E-REDES que parametrize o contador mais cedo.
A ERSE prometeu simuladores e material explicativo ao longo da implementação. Por agora, o comunicado com os novos horários está publicado no site do regulador — e vale a pena guardar a data de julho de 2027 algures.
Por Beatriz Mota
Infografia: Tugadaily · dados ERSE