Mandar um carro para a sucata mudou hoje em toda a União Europeia
O novo regulamento europeu dos veículos em fim de vida entrou em vigor a 13 de agosto. Fixa 15% de plástico reciclado nos carros novos a partir de 2032, alarga as regras a camiões, autocarros e motociclos, e a partir de meados de 2031 só deixa exportar para fora da UE veículos que ainda circulem.
Entrou hoje em vigor o regulamento europeu que decide como os carros são feitos, desmontados e reciclados quando chegam ao fim. Substitui duas diretivas com idade para votar: uma de 2000, outra de 2005.
Nada disto se nota amanhã num stand. Quase todos os números do texto têm data marcada para a próxima década, e é aí que está a história.
O que muda já
A partir de hoje, os fabricantes têm de disponibilizar instruções claras sobre como se retira e se substitui cada componente, durante a vida do carro e no fim dela. Parece nota de rodapé técnica. É a diferença entre uma oficina aproveitar uma peça que funciona e o carro inteiro seguir para trituração.
O regulamento aperta também a rastreabilidade dos veículos que saem de circulação e define critérios mais nítidos para separar um carro usado de um carro em fim de vida. Essa fronteira é onde muitos veículos desapareciam das estatísticas.
E o âmbito alarga-se. As novas regras passam a abranger camiões, autocarros e motociclos, que antes ficavam de fora.
As datas que interessam
2032: os carros novos vendidos na UE têm de incorporar 15% de plástico reciclado. 2036: 25%. Para o aço e o alumínio, a Comissão vai fixar metas próprias, com aplicação prevista a partir de 2033.
Meados de 2031 traz a alteração de gume mais afiado para o mercado português de usados. A partir daí, só poderão ser exportados para fora da UE veículos em condições de circular, medida apontada ao hábito de despachar sucata para países terceiros com etiqueta de carro em segunda mão.
Reforça-se ainda a responsabilidade alargada do produtor: quem coloca o carro no mercado passa a contribuir para o custo de o recolher e tratar no fim.
Porque é que Bruxelas se importa tanto com sucata
Menos por ambiente do que se poderia supor. O argumento que atravessa o comunicado é de matéria-prima — o alumínio, o cobre e as terras raras que já estão dentro dos carros parados na Europa e que hoje saem do continente. Recuperá-los sai mais barato e mais seguro do que importá-los.
É a mesma lógica que tem levado a UE a legislar onde antes deixava andar, desde a obrigação de os conteúdos gerados por inteligência artificial se identificarem até à política industrial que se vê na corrida para fornecer os comboios de alta velocidade da CP.
Para quem tem um carro velho parado na garagem, o resumo honesto é este: o texto integral está no Regulamento (UE) 2026/1738, e o que ele muda chega aos construtores muito antes de chegar a si.
Por Beatriz Mota
Imagem: dave_7 / Flickr (CC BY 2.0)