As tarifas americanas do trabalho forçado já estão em vigor e a Europa paga 10%
Os Estados Unidos começaram a cobrar 10% sobre tudo o que a União Europeia lhes vende. O que são estas tarifas, quem foi apanhado e o que muda para quem exporta a partir de Portugal.
Desde sexta-feira, tudo o que a União Europeia vende aos Estados Unidos leva mais 10% de tarifa à entrada. Não é uma ameaça nem uma proposta: entrou em vigor a 24 de julho e já está a ser cobrada nas alfândegas americanas.
A medida vem de uma investigação ao abrigo da Secção 301, o instrumento que Washington usa para punir aquilo que considera práticas comerciais desleais. Desta vez o argumento é o trabalho forçado: o representante americano para o comércio concluiu que 60 economias, entre elas a União Europeia, a China e o México, ou não proibiram a importação de bens produzidos com trabalho forçado, ou proibiram e não fazem cumprir a proibição. Essas 60 economias representam 99,4% de tudo o que os Estados Unidos importam, por isso é mais fácil listar quem escapou do que quem foi apanhado.
Quanto paga a União Europeia?
Dez por cento, o escalão mais baixo. A tarifa tem dois níveis: 10% para quem já tem legislação contra o trabalho forçado mas, no entender de Washington, a aplica com pouca energia, e 12,5% para todos os outros. A Europa tem o regulamento aprovado, ainda em fase de entrada em vigor, e ficou do lado mais suave da tabela. Os detalhes técnicos da decisão estão publicados no site do representante americano para o comércio.
Bruxelas vai retaliar?
Para já, não. A Comissão Europeia tinha classificado a acusação de injustificada quando ela surgiu, em junho, e mantém essa leitura — mas leu a decisão final como estando dentro do acordo comercial fechado com Washington na Escócia no ano passado, e lembrou que já cumpriu a sua parte ao aplicar cortes tarifários a partir de 1 de julho. Traduzindo: Bruxelas prefere continuar a negociar isenções a abrir uma guerra por causa de dez pontos percentuais.
O que muda para quem exporta a partir de Portugal?
Muda a conta. Os Estados Unidos são um dos maiores mercados extracomunitários para o têxtil, o calçado, a cortiça, o vinho e os moldes portugueses, e uma tarifa de 10% ou é absorvida na margem, ou é passada ao cliente americano, ou custa encomendas. Nenhuma das três hipóteses é indolor num verão em que o país celebra o recorde de investimento estrangeiro e conta com as exportações para segurar o crescimento.
A parte menos má é que ninguém aqui foi escolhido a dedo: a tarifa é igual para toda a União Europeia e o escalão é o mínimo. A parte má é que a fatura chega na mesma, e chega já.
Por Marta Carneiro
Imagem: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)