Os EUA atacaram a central nuclear de Darkhovin — e o Irão dá o acordo por morto
Os EUA bombardearam a central nuclear de Darkhovin, em construção no Khuzistão, ao nono dia de ataques ao Irão. Teerão anunciou que deixa de cumprir o acordo e a AIEA está a avaliar os danos.
O conflito entre os Estados Unidos e o Irão cruzou este domingo uma linha que ainda não tinha sido tocada: uma central nuclear. Por volta das 03h39 locais, vários projéteis norte-americanos atingiram o estaleiro de Darkhovin, no sudoeste do país, e Teerão respondeu da forma mais previsível — anunciou que deixa de cumprir o acordo alcançado em maio. Donald Trump, questionado sobre o anúncio iraniano, despachou o assunto: não podia importar-se menos.
O que é a central de Darkhovin?
Darkhovin é uma central nuclear em construção na província do Khuzistão, perto da fronteira com o Iraque, desenhada para produzir 300 megawatts com um reator de água pressurizada — um projeto com anos de atrasos, de que a China chegou a retirar os seus modelos de reator. A Organização de Energia Atómica iraniana condenou o ataque a uma infraestrutura que diz ser pacífica, não havendo para já registo confirmado de vítimas no local. A AIEA, o regulador nuclear da ONU, confirmou estar a analisar os relatos — o comunicado oficial pode ser acompanhado no site da agência.
Washington enquadra esta vaga de ataques como resposta à morte de dois militares na Jordânia, o episódio que no sábado fez o conflito subir mais um degrau, e diz querer reduzir a capacidade iraniana de ameaçar a navegação no estreito de Ormuz.
Quantas vítimas leva o conflito EUA-Irão?
O Ministério da Saúde iraniano fala em mais de 50 mortos e 517 feridos desde o fim de junho, incluindo mulheres e menores — números avançados por Teerão que não é possível verificar de forma independente. Do lado do Golfo, o estreito de Ormuz continua praticamente fechado à navegação, com os petroleiros a escoar por conta-gotas, a pressão que já se sente nos preços em Portugal.
Nove dias depois do fim do cessar-fogo, a novidade não é haver mais uma noite de bombas — é o alvo. Atacar uma central nuclear, mesmo inacabada, mete a AIEA, o direito internacional e todos os vizinhos do Golfo na conversa. A semana vai dizer se Darkhovin foi um aviso ou um precedente.
Por Marta Carneiro
Imagem: TUBS / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)