Os exames nacionais vão levar mais 500 mil euros — e só ficam mesmo resolvidos em 2027
Fernando Alexandre deixou o EduQA gastar até 500 mil euros a segurar a correção dos exames nacionais. O sistema que devia resolver isto a sério, o GAEBS, só arranca em 2027.
O ministro da Educação autorizou o EduQA a gastar até 500 mil euros em apoio tecnológico de emergência para segurar a correção dos exames nacionais. Não é um investimento planeado — é um penso rápido caro, comprado a meio da hemorragia.
A verba dá ao instituto margem para contratar serviços, comprar equipamento e chamar consultoria especializada quando estiver devidamente justificado. Traduzindo: para pagar a alguém que ponha de pé, já, o sistema que devia estar de pé desde o início de junho.
Afinal o que é que está a falhar na plataforma dos exames?
Tudo aquilo que uma plataforma de correção não pode falhar. A plataforma esteve em manutenção pelo menos desde o final da tarde de domingo até às 15h25 de segunda-feira, com os professores a perderem horas de um prazo que não estica. Pelo caminho, os relatos acumulam-se: convocatórias erradas, docentes chamados a corrigir disciplinas que não lecionam, exames que desaparecem do sistema, digitalizações ilegíveis, respostas cortadas a meio e folhas trocadas entre provas diferentes.
Fernando Alexandre disse à Lusa que foi detetada uma fragilidade de segurança, entretanto corrigida. Só que os professores continuam a reportar erros, e os problemas de fundo continuam sem resposta.
E quando é que isto fica resolvido de vez?
Aqui está a parte que ninguém no Ministério quer sublinhar: em 2027. O sistema definitivo, o GAEBS, é que deve juntar num só sítio as inscrições, a organização das provas, a classificação, a divulgação dos resultados e a certificação dos percursos escolares. A entrada em funcionamento está prevista para 2027 — ou seja, a solução estrutural não chega a tempo de resolver 2026. Este ano vive-se com os 500 mil euros e com boa vontade.
O detalhe mais desconfortável é que nada disto era imprevisível. As falhas foram sinalizadas há cerca de um ano num projeto-piloto que testou o mesmo modelo de correção digital com o exame de Filosofia, em 2025. Foram lidas, arquivadas e o modelo avançou na mesma.
No Parlamento, o assunto já deixou de ser informático e passou a ser político: o PS admite uma comissão de inquérito e exige explicações, e as consequências para os alunos começam a ficar visíveis nos números — a revisão de notas está a subir classificações em 76% dos casos. O calendário oficial das provas continua no site do IAVE, que é onde as famílias vão bater à porta quando alguma coisa não bate certo.
Quinhentos mil euros para tapar um buraco que se sabia existir. É caro — e ainda por cima é o preço da parte fácil.
Imagem: António Amen / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)