Marinha em rota de colisão com o tribunal: juíza ameaça nova multa ao Chefe da Armada
A juíza do julgamento do caso NRP Mondego voltou a repreender a Marinha por entorpecimento processual e ameaça nova multa ao almirante Jorge Nobre de Sousa. Testemunhas ouvidas a 23 de setembro.
O braço de ferro entre a justiça e a Marinha subiu mais um degrau esta sexta-feira. A juíza que preside ao julgamento de três militares acusados de violação de segredo de Estado, no caso ligado ao NRP Mondego, voltou a repreender o ramo por entorpecimento processual e avisou que o Chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Jorge Nobre de Sousa, arrisca nova multa se as testemunhas voltarem a faltar.
Porque está o Chefe da Armada em risco de nova multa?
Porque o tribunal já não confia na cadeia de notificações da Marinha. Em junho, o almirante foi condenado a pagar 816 euros depois de o ramo ter falhado a notificação de duas testemunhas militares — uma falha que a própria Marinha admitiu como interna, negando qualquer desrespeito pelo tribunal. Agora, a juíza decidiu não arriscar: as testemunhas serão convocadas por carta, por telefone e através da Polícia Judiciária Militar, e a audiência ficou marcada para 23 de setembro. Se a máquina voltar a emperrar, a sanção repete-se.
Quem pagou a multa de 816 euros?
É a segunda frente da polémica. O advogado Garcia Pereira sustenta que a multa foi paga através de uma conta do IGCP — a agência que gere a tesouraria do Estado — o que significaria dinheiros públicos a saldar uma sanção pessoal. A Marinha garante o contrário: o pagamento saiu de conta bancária pessoal do almirante, que nega qualquer uso de verbas públicas. A dúvida, essa, ficou a pairar na sala de audiências e dificilmente desaparece sozinha.
Para o Governo e para o Parlamento, o caso é mais uma dor de cabeça institucional num semestre político já carregado — o debate do Estado da Nação está marcado para dia 16, e a relação entre tribunais e Forças Armadas não é tema que nenhum executivo queira em manchetes. Entre a disciplina militar e a autoridade judicial, setembro dirá se a Marinha aprendeu a entregar cartas.
Imagem: Rakoon / Wikimedia Commons (CC0)