Portugal ainda vende mais ao exterior do que compra, mas a margem encolheu 45,8% num ano
O excedente das balanças corrente e de capital ficou em 1.201 milhões de euros no primeiro semestre, contra o dobro disso em 2025. O Banco de Portugal aponta o dedo às importações de bens, que cresceram mais do dobro das exportações.
A economia portuguesa fechou o primeiro semestre com um excedente externo de 1.201 milhões de euros. Continua a ser um saldo positivo, o que na história recente do país não é banal. Mas é menos 45,8% do que no mesmo período de 2025, e o Banco de Portugal explica onde é que a margem se perdeu.
A resposta está quase toda na balança de bens. As importações cresceram 4.715 milhões de euros face ao semestre homólogo, mais do dobro do crescimento das exportações, que ficou pelos 2.207 milhões. O défice comercial de bens agravou-se em 2.508 milhões de euros. Não é que Portugal tenha vendido menos lá fora. É que comprou muito mais depressa do que vendeu.
Do outro lado, houve um empurrão que segurou o resultado. O excedente da balança de capital subiu 1.325 milhões de euros, e o banco central atribui essa subida a duas coisas concretas: os recebimentos de indemnizações de resseguros vindas do estrangeiro, sobretudo compensações por danos das tempestades que atingiram o continente nos primeiros meses do ano, e o aumento das verbas de fundos europeus entregues a beneficiários finais, com destaque para o Plano de Recuperação e Resiliência.
O que isto vale em percentagem do PIB
O excedente das balanças corrente e de capital representou 0,8% do produto interno bruto semestral. É uma almofada fina, mas é uma almofada, e mantém o país na posição de quem financia o exterior em vez de precisar de ser financiado.
A capacidade de financiamento traduziu-se num saldo da balança financeira de 630 milhões de euros, contra 1.862,6 milhões um ano antes. O Banco de Portugal identifica dois setores como os principais responsáveis pelo saldo positivo: as administrações públicas, por via do aumento dos seus depósitos no exterior, e as seguradoras e fundos de pensões, pelo investimento em títulos de dívida emitidos por não residentes. Do lado inverso, o próprio banco central e as empresas não financeiras registaram as maiores reduções de ativos líquidos.
Só em junho
O mês de junho, isolado, deu um excedente externo de 348 milhões de euros, menos 359 milhões do que em junho de 2025. Também aqui o culpado é o mesmo: um agravamento de 767 milhões no défice de bens, parcialmente compensado por subidas nos excedentes das balanças de capital e de rendimento primário.
Vale a pena ler estes números ao lado de outro que saiu esta semana: as empresas com capital estrangeiro são apenas 3% do tecido empresarial português mas fazem 46% das exportações. Quando o motor exportador é tão concentrado, um semestre em que as importações aceleram e as vendas não acompanham não é um acidente estatístico, é um sinal de estrutura. A nota completa está publicada no BPstat, o portal de estatísticas do Banco de Portugal.
Por Beatriz Mota
Infografia: Tugadaily · dados Banco de Portugal