Portugal já mandou 42 filmes aos Óscares sem uma única nomeação. Este é o 43.º
A Academia Portuguesa de Cinema escolheu 'A Memória do Cheiro das Coisas', de António Ferreira, entre seis finalistas. É um drama rodado em Coimbra sobre um ex-combatente da guerra colonial que entra num lar e não aceita ser cuidado por uma auxiliar negra.
Portugal submete um filme ao Óscar de Melhor Filme Internacional desde 1980. Contámos a lista que a própria academia e o registo da categoria mantêm: são 42 candidaturas em 46 anos, e nenhuma delas chegou sequer a nomeada. É o país com mais tentativas sem uma única nomeação na categoria.
A 43.ª é A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, escolhida pela Academia Portuguesa de Cinema para a 99.ª edição dos prémios, marcada para 14 de março de 2027 em Los Angeles.
O filme
Arménio está à beira dos oitenta e é levado para um lar. Não gosta de ser tratado como os outros velhos e não aceita ser cuidado por Hermínia, uma auxiliar negra portuguesa. É contra ela que descarrega o preconceito, enquanto à noite revive a guerra que fez em África. José Martins e Mina Andala são os dois rostos do filme, rodado inteiramente em Coimbra.
António Ferreira, nascido em 1970 e ele próprio de Coimbra, falou com antigos combatentes e com psicólogos antes de escrever. Explicou à Lusa que queria falar de envelhecimento e, ao mesmo tempo, daquilo que sobrou na sociedade portuguesa décadas depois do fim da guerra: homens a quem ninguém desmontou as ideias que lhes tinham sido postas na cabeça.
O filme já rendeu a José Martins o prémio de melhor ator no festival de Xangai, e a Ferreira e a Tiago Cravidão o de melhor argumento em Tânger.
Os outros cinco
A escolha saiu de uma votação dos membros da academia entre 21 de agosto e 10 de setembro, a partir de uma pré-seleção de seis títulos. Ficaram pelo caminho 18 Buracos para o Paraíso, de João Nuno Pinto; Maria Vitória, de Mário Patrocínio; Primeira Pessoa do Plural, de Sandro Aguilar; Projeto Global, de Ivo M. Ferreira; e Terra Vil, de Luís Campos.
Vale a pena esperar alguma coisa?
A estatística é o que é, mas convém distingui-la de outra. Portugal nunca foi nomeado nesta categoria; foi nomeado uma vez nos Óscares, com a curta de animação Ice Merchants, de João Gonzalez, em 2023. E as últimas temporadas têm sido as mais movimentadas de sempre para o cinema português lá fora, entre o passeio de Leonor Teles por Veneza e uma carteira de estreias nacionais que encheu salas este mês.
O caminho é longo: em dezembro a academia americana divulga uma lista de dez, e só depois saem os cinco nomeados. Até lá, há um filme português em Coimbra à espera de dezembro.
Por Lucy Bennett
Imagem: Persona Non Grata Pictures