Portugal vai levar os seus satélites para a NATO, e o Atlântico é o argumento
Portugal prepara a entrada no APSS, o programa de vigilância por satélite da NATO que já junta 19 países. Entra com satélites da Constelação Atlântica, incluindo um radar operado pela Força Aérea.
Portugal está a tratar da papelada para entrar no clube de satélites da NATO. E, ao contrário de outras adesões, desta vez não vai de mãos a abanar.
O país prepara-se para aderir ao APSS, o programa com que a Aliança vigia o planeta a partir do espaço, e leva consigo satélites próprios — os da Constelação Atlântica. Segundo o Estado-Maior-General das Forças Armadas, os procedimentos para definir a participação portuguesa estão a ser preparados.
O que é o programa APSS da NATO?
APSS quer dizer Alliance Persistent Surveillance from Space, e é mais simples do que o nome sugere: em vez de a NATO comprar uma constelação de satélites do zero — o que custaria uma fortuna e demoraria uma década — cada país empresta os satélites que já tem, militares ou comerciais, e tudo isso passa a funcionar como uma única rede virtual, batizada Aquila.
Serve para vigiar movimentos militares, tráfego marítimo e catástrofes naturais, com imagens a chegar de forma contínua em vez de aos bocados. Lançado em 2023, já tem 19 países e mais de mil milhões de dólares em capacidades espaciais somadas. A Espanha entrou há pouco tempo. Portugal é o próximo da fila, e a página oficial da NATO explica como funcionam estas cooperações multinacionais.
Que satélites é que Portugal tem para dar?
Mais do que se pensa. Em março o país pôs dois satélites da Constelação Atlântica em órbita, e um deles é um radar de abertura sintética operado pela Força Aérea — o tipo de satélite que vê através de nuvens e de noite, que é precisamente o que falta a quem quer vigiar o Atlântico Norte no inverno.
E é aqui que a coisa deixa de ser um detalhe técnico. Em julho Portugal já tinha assinado, com outros onze aliados, um compromisso para assumir mais responsabilidade na segurança marítima do Atlântico — a diferença é que agora a vigilância vem de cima. Um radar que vê o Atlântico de noite e através das nuvens é exatamente a peça que faltava a esse compromisso.
Não é a primeira vez que o setor espacial português aparece nas notícias este mês — a Lusospace já tinha posto três poetas em órbita na constelação Lusíada. A diferença é que, dessa vez, o cliente era a ciência. Agora é a defesa.
Falta saber com quantos satélites Portugal entra, e quando. A papelada, essa, já anda a andar.
Por Marta Carneiro
Imagem: U.S. Department of State from United States / Wikimedia Commons (domínio público)