A Galp lucrou 682 milhões no verão. Pelas contas oficiais, foram 201
O resultado líquido ajustado (RCA) da Galp subiu 68% no terceiro trimestre, para 682 milhões de euros, com a refinação e o Brasil a puxar. Em IFRS, o lucro caiu 24% para 201 milhões, depois de 453 milhões em perdas, sobretudo por reavaliar derivados ainda por liquidar.
Há dois números para o mesmo trimestre da Galp, e estão longe um do outro. O que a empresa destaca é o resultado líquido ajustado, a que chama RCA: 682 milhões de euros entre julho e setembro, mais 68% do que os 407 milhões de há um ano e o melhor trimestre de que a Galp tem registo. O outro é o lucro calculado pelas normas contabilísticas internacionais (IFRS), o que vai para as contas oficiais: 201 milhões, menos 24% do que os 264 milhões do terceiro trimestre de 2025.
Os dois estão no relatório de resultados que a Galp publicou a 26 de outubro. E a diferença tem explicação.
De onde vêm os 481 milhões que faltam
O número ajustado tira da conta duas coisas. A primeira é o efeito do valor dos stocks de petróleo, que sobe e desce com o preço do barril sem que a empresa venda mais ou menos por isso (aqui, menos 29 milhões). A segunda são os chamados itens especiais, e neste trimestre pesaram 453 milhões negativos.
Quase tudo vem de derivados financeiros ainda por liquidar. São contratos de cobertura que a Galp tem sobre preços de matérias-primas, e que têm de ser reavaliados ao valor de mercado no fim de cada trimestre. Com o petróleo e o gás caros e voláteis, essa reavaliação deu perda no papel. Não é dinheiro que saiu, mas também não é dinheiro que se possa ignorar: só se sabe quanto valem esses contratos no dia em que fecham.
Nos nove meses, o padrão repete-se. O lucro ajustado soma 1.494 milhões, mais 54%. Em IFRS ficam 852 milhões, menos 9%, com 658 milhões de perdas só na reavaliação de derivados.
O que correu mesmo bem
O negócio, esse, acelerou. O Ebitda ajustado chegou a 1.522 milhões, mais 67%. A produção de petróleo e gás subiu 14% para 131 mil barris equivalentes por dia, com o navio-plataforma de Bacalhau, no pré-sal brasileiro, a ganhar ritmo. A refinação em Sines aproveitou margens internacionais muito altas e a área industrial e de midstream rendeu 639 milhões de Ebitda, contra 315 há um ano. O retalho cresceu 24% e as renováveis, com os parques eólicos comprados em Espanha, passaram de 16 para 48 milhões.
Por isso a Galp voltou a subir as previsões para o ano: conta agora com um Ebitda ajustado de cerca de 5 mil milhões de euros (antes eram 4), com o Brent a uma média de 90 dólares e uma margem de refinação de cerca de 25 dólares por barril, quase o dobro dos 13 que tinha assumido.
É a mesma Galp que, no mesmo dia, deu por encerradas as conversas de fusão com a espanhola Moeve. No relatório, os dois co-presidentes executivos dizem que a estratégia fica igual. A dívida líquida está em 1,4 mil milhões, e o dividendo intercalar de 253 milhões já foi pago.
Por Beatriz Mota
Imagem: Galp (conteúdos multimédia)