A Vista Alegre saiu da bolsa (e quem ficou com ações tem três meses para as vender a 1,07 euros)
A CMVM aprovou na quinta-feira a exclusão da VAA — Vista Alegre Atlantis da Euronext Lisboa, com efeitos imediatos. A Visabeira Indústria fica obrigada a comprar as ações de quem não votou a favor, a 1,07 euros cada, durante um prazo de três meses.
As ações da Vista Alegre deixaram de se comprar e vender na bolsa de Lisboa. A CMVM aprovou na quinta-feira o pedido de exclusão de negociação da VAA — Vista Alegre Atlantis, SGPS, e a decisão produziu efeitos de imediato, ao abrigo do artigo 251.º-F do Código dos Valores Mobiliários.
Não foi uma surpresa. O caminho tinha sido aberto na assembleia geral de 29 de maio, onde os acionistas aprovaram a saída a pedido da Visabeira e de um conjunto de titulares que já controlava a esmagadora maioria do capital. O argumento então apresentado foi aritmético: o capital disperso em bolsa tinha encolhido para cerca de 5%, e uma cotação que quase ninguém negoceia custa a manter e serve pouco.
O que muda para quem ainda tem ações
Esta é a parte com relógio. A Visabeira Indústria comprometeu-se a comprar as ações a quem não votou a favor da exclusão, ao preço unitário de 1,07 euros. O montante fica disponível durante três meses a contar da decisão do regulador, que é o prazo que a lei fixa para este tipo de saída.
Passado esse prazo, o pequeno acionista continua dono do que era seu — mas dono de um título que já não tem mercado organizado onde se venda. É a diferença prática entre ter uma ação cotada e ter uma participação numa sociedade fechada.
Uma casa de 1824 que sai do sítio onde se via o preço
A fábrica nasceu de um alvará assinado por D. João VI em 1824, em Ílhavo, junto à ria de Aveiro, e é de lá que continua a sair a porcelana. A VAA como a conhecemos é mais recente: resultou da junção com a Atlantis em 2001, e passou para as mãos da Visabeira em 2009. Em 2025, a empresa fechou o exercício com um lucro de 4.110.015,21 euros, segundo a comunicação que fez ao mercado.
A saída não muda nada nos fornos. Muda quem tem de contar o que lá se passa, e com que frequência: fora da bolsa, caem as obrigações de informação que fazem de uma empresa portuguesa um objeto público. É o movimento inverso ao que se viu este ano quando o Estado ficou com 13,7% da REN — ali entrou-se no capital de uma cotada, aqui tira-se uma cotada da praça.
Por Beatriz Mota
Imagem: CardosoSousa1988 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)