A Anthropic perdeu 80,7 mil milhões de dólares num semestre (e 72,4 são contabilidade)
A dona do Claude entregou na SEC o pedido de entrada em bolsa, na Nasdaq, com o símbolo ANT. O prospeto mostra receitas de 16,3 mil milhões de dólares no 1.º semestre e uma perda líquida de 80,7 mil milhões, quase toda explicada pela reavaliação de notas convertíveis. A perda operacional foi de 693 milhões.
A Anthropic, a empresa que faz o assistente Claude, pediu esta segunda-feira para entrar em bolsa. As ações vão ser negociadas na Nasdaq com o símbolo ANT, e a operação é liderada pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley. Quantas ações e a que preço, ainda ninguém sabe: o comunicado da empresa deixa os dois números em branco.
O que já se sabe está no prospeto. E há um número que salta à vista.
Uma perda de 80,7 mil milhões
No primeiro semestre de 2026, a Anthropic registou uma perda líquida de 80,7 mil milhões de dólares. É quase o dobro do que perdeu em todo o ano de 2025 (42 mil milhões).
Só que lido com calma, o prospeto S-1 entregue à SEC conta outra história. Desses 80,7 mil milhões, 72,4 mil milhões vêm da variação do justo valor de notas convertíveis, derivados e acordos de capital futuro. Traduzindo: a empresa passou a valer muito mais, as dívidas que se convertem em ações passaram a valer muito mais também, e a contabilidade obriga a lançar essa diferença como perda. Não é dinheiro que saiu do banco.
A perda operacional, a que mede o negócio em si, foi de 693 milhões de dólares. Um ano antes tinha sido de 2,1 mil milhões.
As receitas multiplicaram-se
A outra metade do gráfico é a que os investidores vão ler primeiro. A Anthropic faturou 41 milhões de dólares em 2023, 386 milhões em 2024 e 4,6 mil milhões em 2025. Só nos primeiros seis meses deste ano foram 16,3 mil milhões, contra 1,2 mil milhões no mesmo período de 2025.
Os clientes grandes explicam boa parte disso. Os que gastam mais de 100 mil dólares por ano passaram de mais de 600 para mais de 6.000 entre junho de 2025 e junho de 2026, e valem 74% da receita. A própria empresa avisa que não espera manter este ritmo.
Quem manda depois da bolsa
A Anthropic é uma public benefit corporation do Delaware, obrigada a pesar o interesse dos acionistas com o objetivo de desenvolver IA de forma responsável. Um fundo independente, o Long-Term Benefit Trust, fica com uma classe especial de ações (a Classe T) que lhe dá o poder de eleger a maioria do conselho de administração, sem direitos económicos. Por isso a Nasdaq vai tratá-la como “empresa controlada”.
A rival OpenAI também anda a preparar a sua entrada em bolsa. A Anthropic chegou primeiro ao papel. A data e o preço só aparecem quando o registo na SEC se tornar efetivo, e até lá não se vende uma única ação.
Por Beatriz Mota
Gráfico: Tugadaily, com dados do prospeto S-1 da Anthropic (SEC)