A luz sobe 2,7% em outubro no mercado regulado (e a conta muda menos do que a percentagem sugere)
A ERSE atualiza a tarifa de Energia em 0,005 euros por kWh a partir de 1 de outubro. Para um casal sem filhos são mais 95 cêntimos por mês; para um casal com dois filhos, mais 2,70 euros. A subida abrange 779 mil clientes e o regulador passa adiante menos de um terço do desvio que apurou.
A partir de 1 de outubro a eletricidade fica mais cara para quem está no mercado regulado. A ERSE atualiza a tarifa de Energia em 0,005 euros por kWh, o que dá cerca de 2,7% na fatura média mensal — e é a percentagem, não o valor, que vai andar nos títulos.
O valor merece ser dito, porque muda a forma como isto se lê. No comunicado que o regulador publicou ontem estão duas tipologias concretas. Um casal sem filhos, com 3,45 kVA e 1.900 kWh por ano, passa a pagar 37,77 euros por mês: mais 95 cêntimos do que em setembro. Um casal com dois filhos, com 6,9 kVA e 5.000 kWh por ano, passa a 97,73 euros: mais 2,70 euros. São valores para o continente, já com taxas e impostos, tirando a taxa da DGEG.
Quem é que isto apanha, afinal
Não é o país. O mercado regulado tinha 779 mil clientes em junho e representa cerca de 4,6% do consumo total de eletricidade em Portugal. Os restantes estão no mercado livre, onde cada comercializador compra energia à sua maneira e não fica obrigado a repercutir nada — a ERSE faz questão de o dizer, ao mesmo tempo que aconselha toda a gente a ir espreitar o simulador de preços antes de assumir que a sua fatura está imune.
Porque é que a tarifa mexe fora de janeiro
Porque o Regulamento Tarifário manda monitorizar de três em três meses se a tarifa ainda cobre o custo de aquisição do comercializador de último recurso. Quando o desvio chega a 0,010 euros por kWh, a tarifa move-se 0,005. É um mecanismo automático, não uma decisão discricionária.
E é aqui que está o número mais interessante do documento. O desvio apurado para 2026 não é de 0,010: é de 0,0176 euros por kWh face à previsão que estava implícita nos preços em vigor até 30 de setembro. Ou seja, o regulador encontrou um buraco de quase o dobro do gatilho e passou adiante 0,005 — menos de um terço. A regra é essa e está escrita, mas a consequência prática também é: o custo que sobrou não desapareceu, ficou para trás.
A ERSE atribui a subida à trajetória dos preços no mercado grossista ao longo do ano, e é explícita quanto à causa: a guerra entre o Irão e os Estados Unidos empurrou o gás natural e, com ele, a eletricidade. O efeito tornou-se visível sobretudo a partir do terceiro trimestre, quando o peso das renováveis na produção nacional é menor — o mesmo verão em que o leilão de 1.050 MVA de armazenamento ficou adiado.
Há ainda uma correção discreta no comunicado que vale a pena guardar. A variação anual de preços para 2026 deixa de ser o 1% anunciado no final de 2025 e passa a 1,7%. O ano fechou-se de outra maneira daquela que foi prometida — e, ao contrário das novas regras de períodos horários que só chegam em 2027, esta mudança entra em vigor daqui a duas semanas.
Por Beatriz Mota
Gráfico: Tugadaily, com dados da ERSE