Portugal é o 8.º melhor país do mundo para expatriados. A papelada é que continua a ser a pior parte
O Expat Insider 2026 da InterNations coloca Portugal em oitavo entre 31 destinos, com 94% dos inquiridos a sentirem-se seguros e três em cada quatro a dizer que o rendimento chega. Só um em cada cinco acha fácil lidar com os serviços.
Há um retrato de Portugal que circula todos os anos entre quem está a pensar mudar-se, e este ano ele voltou a sair simpático. O Expat Insider 2026 da InterNations põe Portugal em oitavo lugar entre 31 destinos, à frente do Luxemburgo e atrás de Singapura, num top 10 que junta três países europeus, três latino-americanos e três do sudeste asiático.
Depois abre-se o relatório e aparece a outra metade.
O que Portugal ganha
A segurança é o ponto mais alto de todos: 94% dos estrangeiros residentes dizem sentir-se seguros, contra 81% na média global. É uma diferença de treze pontos, e é o género de coisa que não aparece num folheto mas se nota ao fim de duas semanas.
O dinheiro também dá conta do recado. Três em cada quatro inquiridos consideram que o rendimento disponível chega para viver confortavelmente, acima dos 71% da média mundial, e Portugal fica em quarto lugar no índice de finanças pessoais — o mesmo pelotão da frente onde estão o Panamá, a Tailândia e o México. Um em cada cinco veio expressamente reformar-se cá, e a idade média dos inquiridos em Portugal é de 58,7 anos, o que ajuda a explicar muita coisa no resto do inquérito.
Curiosamente, a habitação não surge como o problema que é para grande parte dos portugueses. O relatório nota que, ao contrário do que acontece noutros destinos, os expatriados em Portugal não apontam o preço e a falta de casas como uma dificuldade de primeira linha. Vale a pena ler isso pelo que é: uma amostra com muito reformado e muito quadro qualificado não sente o mercado da mesma maneira que um casal de trinta anos a tentar sair de casa dos pais.
O que Portugal perde
Apenas um em cada cinco acha fácil tratar de assuntos com os serviços públicos. Trinta e cinco por cento já vinham preocupados com a burocracia antes sequer de aterrar, uma inquietação só ultrapassada pela língua — e quem tem acompanhado o andamento dos processos na AIMA sabe exatamente de que espera se fala.
O emprego é pior ainda. Só 19% avaliam positivamente a situação do mercado de trabalho, e Portugal fica em último lugar na pergunta sobre a melhoria das perspetivas de carreira. Não é uma surpresa isolada: o visto criado precisamente para atrair quadros qualificados continua sem se poder pedir quase um ano depois.
Vale a pena?
Trinta e nove por cento dizem que ficariam cá para sempre, contra 27% na média global. É a resposta mais honesta que o inquérito dá: quem escolhe Portugal raramente o escolhe pela carreira, e a conta continua a fechar na mesma.
Por Juliana Castilho
Infografia: Tugadaily · dados InterNations, Expat Insider 2026