Nove carrinhos de supermercado foram ao fundo da baía da Trafaria. Agora são casa de cavalos-marinhos
A WWF Portugal e a MARDIVE fixaram nove carrinhos recuperados em três pontos da baía da Trafaria, em Almada, depois de mergulhadores perceberem que os cavalos-marinhos já se agarravam ao lixo. A monitorização vai até 2028.
Há nove carrinhos de supermercado pousados no fundo da baía da Trafaria, em Almada, e ninguém os quer de lá tirar. Foram lá postos de propósito, presos ao sedimento, distribuídos por três pontos da baía. São abrigos.
A ideia não nasceu numa reunião. Nasceu debaixo de água, quando os mergulhadores da MARDIVE, a associação que faz o trabalho científico da iniciativa D-EVOLUÇÃO da WWF Portugal no estuário do Tejo, foram ver o que restava do fundo em frente à vila. Encontraram o esperado: artes de pesca perdidas, plástico, entulho. E encontraram carrinhos de supermercado abandonados com cavalos-marinhos agarrados a eles.
Uma população que ninguém contava encontrar ali
As duas espécies que ocupam a baía são o cavalo-marinho-comum, Hippocampus hippocampus, e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido, Hippocampus guttulatus. A população foi identificada em 2019 e é, para o que costuma ser esta espécie, densa. Gonçalo Silva, o biólogo e mergulhador científico da MARDIVE responsável pela intervenção subaquática, descreve o contraste: noutros sítios um mergulho dá um ou dois animais, aqui o primeiro deu dez ou doze. Aparece também com frequência o marinha-de-focinho-longo Syngnathus acus, da mesma família, o que faz da zona uma comunidade e não uma curiosidade isolada.
O problema é o que está à volta. O habitat estuarino ali está degradado por lixo marinho, poluição, ruído subaquático e dragagens, e um cavalo-marinho precisa de coisas a que se agarrar com a cauda. Quando a vegetação desaparece, agarra-se ao que houver.
Dois serralheiros e uma ideia simples
Em vez de retirar os carrinhos, a equipa decidiu usar aquilo que já estava a funcionar. Dois serralheiros locais trataram deles: tiraram os plásticos, soldaram peças, prepararam a estrutura para poder ser estacada no fundo e não andar a rolar com as marés. A comunidade entrou no projeto pela porta da oficina.
A intervenção conta com a WWF Portugal e a MARDIVE e o apoio da Lidl Portugal, da Solvena e dos Pastéis de Belém. A monitorização decorre entre 2026 e 2028 e vai medir três coisas: se as espécies-alvo ocupam mesmo os abrigos, que comunidades biológicas se instalam à volta, e como evolui a área intervencionada.
O estuário do Tejo é o maior do país e uma das zonas húmidas mais importantes da Europa, e a margem sul tem levado com quase tudo ao mesmo tempo — o alerta da água em Almada num verão, duas travessias novas prometidas para dez anos no outro. Que um bocado da recuperação da baía passe por carrinhos de supermercado soldados diz alguma coisa sobre o estado do fundo, e alguma coisa sobre quem decidiu não desistir dele.
Por Marta Carneiro
Imagem: Olivier Dugornay / Ifremer, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)