Os javalis e os veados já provocam mais de mil acidentes por ano nas estradas portuguesas
As colisões com javalis, veados e outros ungulados nas estradas da Infraestruturas de Portugal passaram de menos de 20 por ano em 2015 para mais de 140 em 2025. No total do país já são mais de mil por ano.
Se conduz à noite por estradas do interior e já teve aquele susto de ver um vulto escuro atravessar à frente dos faróis, não foi azar seu. Foi estatística. As colisões com javalis, veados e outros ungulados nas estradas geridas pela Infraestruturas de Portugal passaram de menos de 20 por ano até 2015 para mais de 140 em 2025 — e no país inteiro, contando todas as estradas, já se ultrapassa o milhar de acidentes anuais.
Os números da IP começam em 2010, quando a monitorização arrancou, e desde então somam 856 colisões. A esmagadora maioria, 762, envolveu javalis. Coimbra e Viseu aparecem como zonas particularmente críticas.
Porque é que há tantas colisões com javalis?
Por duas razões que se somam. A primeira é real: a população de javalis expandiu-se de forma acentuada pelo território, ocupando áreas onde antes praticamente não aparecia, incluindo zonas periurbanas. A segunda é de registo: hoje há muito mais informação recolhida e reportada do que havia há dez anos, o que faz com que parte da subida seja melhor contagem e não apenas mais animais.
O que se pode fazer para reduzir os acidentes?
Há um projeto em curso que quer perceber a evolução das populações de ungulados e testar formas de mitigar os impactos, tanto nas estradas como na agricultura — onde os estragos em vinhas e culturas já custam dinheiro real a muitos produtores. As soluções conhecidas passam por vedações em troços críticos, passagens de fauna, sinalização adaptada e gestão cinegética, e nenhuma funciona sozinha.
Para quem conduz, a regra prática é chata mas eficaz: abrandar em zonas sinalizadas com fauna, sobretudo ao amanhecer e ao anoitecer, e contar sempre que atrás de um javali vem outro. Se houver embate, não travar em contramão — a colisão com o animal é quase sempre menos grave do que a despiste que vem a seguir. O mapa da rede e os contactos de emergência estão no site da Infraestruturas de Portugal.
Mil acidentes por ano ainda não é uma crise nacional. Mas é uma curva que só tem subido em quinze anos, e ninguém a travou até agora.
Por Marta Carneiro
Imagem: Wilrooij / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)