Myanmar diz ter verificado 300 mil rohingya para regressarem. No Bangladeche vivem quase quatro vezes mais
O governo apoiado pelos militares birmaneses confirmou que mais de 300 mil refugiados nos campos do Bangladeche eram residentes do estado de Rakhine e que aceitará o seu regresso quando a segurança o permitir. Nove anos depois do êxodo, é uma condição sem data.
Myanmar anunciou este sábado que verificou mais de 300 mil dos refugiados rohingya que vivem nos campos do Bangladeche como antigos residentes do estado de Rakhine, no oeste do país, e que aceitará o seu regresso assim que as condições de segurança melhorarem.
O número diz menos do que parece dizer, e é preciso pô-lo ao lado do outro. Nos campos de Cox’s Bazar e na ilha de Bhasan Char vivem cerca de 1,15 milhões de refugiados rohingya, segundo os dados conjuntos do Governo do Bangladeche e do ACNUR. Verificar 300 mil é verificar pouco mais de um quarto. E verificar não é receber: a frase que interessa no anúncio é a condicional — quando a segurança melhorar.
Nove anos e dois planos falhados
O êxodo começou em agosto de 2017, quando os militares birmaneses lançaram uma ofensiva em Rakhine depois de ataques de um grupo insurgente rohingya a postos de guarda. Centenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira em poucas semanas. Myanmar e o Bangladeche assinaram em 2018 um acordo de repatriamento a dois anos que nunca chegou a funcionar.
Depois a segurança piorou em vez de melhorar. O golpe militar de 2021, que derrubou o governo eleito de Aung San Suu Kyi, abriu uma resistência armada generalizada, e Rakhine é hoje um dos estados onde se combate. Nenhum dos planos de regresso avançou.
Nos últimos 18 meses chegaram ao Bangladeche até 150 mil novos refugiados rohingya, o maior movimento desde 2017. É o dado que enquadra tudo o resto: enquanto se contam pessoas para voltar, continuam a entrar pessoas a fugir.
Porque é que isto importa daqui
Portugal não recebe rohingya em número significativo, mas tem posição sobre a matéria através da União Europeia e das Nações Unidas, e a questão de fundo — o que significa um regresso ser voluntário, seguro e digno — é a mesma que se aplica a qualquer estatuto de proteção. É a diferença entre um Estado dizer que aceita receber e um refugiado poder decidir voltar. A proteção temporária dos ucranianos na UE, prolongada até março de 2028, é o exemplo próximo de como se estica uma solução provisória quando o regresso não é possível.
Para os rohingya não há sequer esse enquadramento. Há campos, há nove anos, e há agora uma lista de 300 mil nomes à espera de uma condição que ninguém datou.
Por Marta Carneiro
Imagem: Rocky Masum / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)