A empresa portuguesa que os Estados Unidos sancionaram por causa de helicópteros iranianos
Washington congelou os bens da Business United e do seu proprietário, António Mira, depois de o FBI a identificar como intermediária numa cadeia de compra de helicópteros e peças para a frota militar do Irão.
O nome apareceu esta segunda-feira numa lista onde nenhuma empresa portuguesa quer estar. A Business United e o seu proprietário, António Mira, foram sancionados pelos Estados Unidos depois de o FBI ter identificado a firma como alegada intermediária em operações de compra de helicópteros e componentes destinados à Pasargad Helicopter Company, empresa iraniana ligada à frota militar do país.
As sanções são administradas pelo Departamento do Tesouro e têm um efeito prático imediato. Os bens ficam congelados em jurisdição norte-americana e fica proibida qualquer transação com cidadãos ou empresas dos Estados Unidos. Para uma empresa que trabalha em comércio internacional, isso equivale a ser desligado do sistema financeiro.
Seis países numa só cadeia
O que os documentos americanos descrevem não é uma venda isolada, mas uma cadeia logística montada para contornar restrições. Os contactos e os pagamentos terão passado por Portugal, pelo Uruguai, pela Alemanha, pela Suécia, pela Turquia e pelos próprios Estados Unidos, com a Pasargad a servir de porta de entrada para a PANHA — a empresa estatal iraniana de manutenção e modernização de helicópteros militares, sancionada por Washington desde 2018.
Portugal surge assim como um nó de uma rede sob escrutínio federal, num momento em que a pressão americana sobre Teerão está no ponto mais alto dos últimos anos. Escrevemos esta manhã sobre as novas exigências iranianas para reabrir o estreito de Ormuz, e o contexto é o mesmo tabuleiro.
O que diz Miguel Frasquilho
O caso ganhou uma segunda camada em Portugal porque Miguel Frasquilho, antigo presidente da AICEP e ex-chairman da TAP, esteve ligado à empresa. Os documentos norte-americanos não lhe atribuem qualquer responsabilidade nos factos investigados.
Em resposta ao Público, Frasquilho afirmou que nunca foi sócio nem teve participação no capital da Business United e que nunca teve, nas suas palavras, rigorosamente nada que ver com operações de compra ou venda de helicópteros e componentes aeronáuticos. Descreveu uma colaboração informal, não executiva e sem remuneração, iniciada em 2023 por amizade com António Mira e limitada a contactos institucionais, incluindo reuniões de câmaras de comércio e contactos com embaixadas em Portugal.
Nenhuma acusação foi deduzida em Portugal e não há, por enquanto, notícia de investigação nacional aberta. A lista de designações e os fundamentos invocados estão publicados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Por Marta Carneiro
Imagem: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)