A televisão pública húngara esteve 44 dias sem noticiários. Hoje voltam, com uma redação nova
A MTVA suspendeu os noticiários da M1 e da rádio Kossuth a 7 de julho, com um ecrã preto e um pedido de desculpas. O regresso está marcado para hoje, feriado nacional na Hungria.
A 7 de julho, quem ligou a M1 ou a rádio Kossuth encontrou um ecrã preto e um pedido de desculpas por anos de distorção política. Não era uma avaria. Era a MTVA, o operador público húngaro, a desligar os seus próprios noticiários por decisão do novo governo. Quarenta e quatro dias depois, hoje, os boletins regressam.
A data não foi escolhida ao acaso: 20 de agosto é feriado nacional na Hungria, o dia de Santo Estêvão, e é a data com maior audiência televisiva do calendário húngaro. O regresso não é imediato nem total — segundo o próprio operador, os boletins voltam de forma gradual, à medida que a nova equipa editorial for sendo constituída.
Como se chegou a um ecrã preto
A suspensão foi uma promessa de campanha. Péter Magyar, que derrotou Viktor Orbán nas legislativas de abril de 2026 à frente do Tisza, tinha dito que os noticiários do serviço público ficariam suspensos até estarem reunidas condições para jornalismo independente. Cumpriu em julho, três meses depois de tomar posse.
Ao longo de mais de uma década, a MTVA foi das instituições mais criticadas por organizações europeias de liberdade de imprensa, que a descreviam como um instrumento de comunicação governamental. O que dificulta a leitura deste episódio é que a solução escolhida — desligar por completo o noticiário do serviço público durante mês e meio — é ela própria uma decisão política sobre o que o serviço público emite, tomada por um governo.
Duas leituras, ambas defensáveis
Quem apoia a medida argumenta que uma redação capturada não se corrige com ajustes editoriais e que a interrupção foi a única forma de quebrar rotinas instaladas e recrutar de novo. Quem a critica responde que o precedente é o problema: se um governo pode calar os noticiários públicos durante 44 dias por considerar que não são fiáveis, o governo seguinte pode invocar o mesmo argumento com outra definição de fiabilidade.
A resposta prática à discussão chega a partir de hoje, e não vem de comunicados: vem do alinhamento dos noticiários, de quem os assina e de quanto tempo dedicam ao governo que os mandou parar. O portal do operador público está em mediaklikk.hu.
Para leitores que acompanham como as instituições reagem a mudanças de poder, escrevemos há dias sobre o processo que o Brasil abriu contra as tarifas norte-americanas, outro caso em que abrir um procedimento e resolvê-lo são coisas diferentes.
Imagem: Révész Gábor / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)