Piratas levaram cerca de 100 milhões ao Crédit Mutuel Arkéa (e não tocaram numa conta de cliente)
O banco francês diz que os atacantes entraram pela plataforma de um prestatário e usaram a conta do próprio grupo para fazer transferências para outros bancos, convertidas depois em criptomoeda. Parte do dinheiro foi bloqueada e o Ministério Público de Paris abriu inquérito.
O Crédit Mutuel Arkéa, o grupo bancário que junta o Crédit Mutuel da Bretanha e do Sudoeste de França, foi vítima de um ataque informático que desviou perto de 100 milhões de euros. O dinheiro não saiu das contas dos clientes, mas da conta do próprio banco.
O grupo anunciou o ataque na quarta-feira e, horas depois, publicou um segundo comunicado com respostas às perguntas mais frequentes. Não confirma os 118 milhões de euros noticiados pela imprensa regional, mas valida a “ordem de grandeza”. A estimativa provisória que circula é de cerca de 100 milhões.
Como aconteceu
Segundo o banco, os atacantes entraram pela plataforma de um prestatário externo e chegaram diretamente aos sistemas do grupo. A partir daí, usaram a conta própria do Arkéa para fazer transferências para outros bancos. O dinheiro terá depois sido convertido em criptomoeda em plataformas especializadas.
O Arkéa garante que não houve erro humano interno e fala de um ataque “sofisticado” vindo de fora. Desmente também que a porta de entrada tenha sido a Fortuneo, o seu banco online, como chegou a ser escrito.
Parte dos fundos já foi bloqueada e há diligências em curso para recuperar o resto. Para pôr o valor em perspetiva: o grupo lucrou 230 milhões de euros no primeiro semestre, pelo que o golpe equivale a algo entre 43% e 51% desse lucro, consoante se use a estimativa mais baixa ou a mais alta.
E os clientes?
Ficaram com o dinheiro intacto, diz o banco, mas não sem incómodo. Por precaução, algumas operações foram suspensas e várias transferências saíram com atraso, até as operações serem retomadas na manhã de quarta-feira.
O aviso mais útil é outro. O Arkéa prevê uma vaga de tentativas de phishing aproveitando o caso e pede aos clientes que nunca entreguem códigos, palavras-passe ou números de cartão por mensagem.
A secção de cibercriminalidade do Ministério Público de Paris abriu um inquérito por acesso ilegítimo a sistemas informáticos em bando organizado. Ninguém reivindicou o ataque.
A porta de entrada pelo lado de um fornecedor repete um padrão recente. Foi também através de um prestador externo que o ciberataque aqueceu frigoríficos de supermercados pela Europa fora, incluindo sete Intermarché em Portugal, e o caso chega uma semana depois de a Binance ter sido assaltada em 6,3 mil milhões de dólares.
Por Oliver Grant
Imagem: Kergourlay / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)