548 dos 1.423 conteúdos feitos com IA nas eleições do Brasil saíram das contas oficiais dos candidatos
O monitor VigIA, da Agência Lupa, confirmou 1.423 publicações políticas criadas ou alteradas com inteligência artificial entre 16 de agosto e 22 de outubro. Cerca de 54% não tinham qualquer aviso, apesar de as regras do TSE o exigirem.
A segunda volta das presidenciais brasileiras terminou no domingo com a reeleição de Lula. Por trás dela fica a campanha mais marcada por inteligência artificial que o país já teve, e um retrato surpreendente de quem a produziu.
O monitor VigIA, da Agência Lupa, analisou 1.486 publicações suspeitas entre 16 de agosto e 22 de outubro e confirmou que 1.423 tinham sido criadas ou manipuladas com IA. Os números estão no terceiro relatório parcial do projeto, publicado na véspera da votação.
Não foram só contas anónimas
A ideia feita é que a IA eleitoral vem de perfis falsos. Os dados contam outra história. Das 1.423 peças, 548 saíram dos perfis oficiais dos próprios candidatos, mais de um terço do total. Outras 560 vieram de eleitores e militantes comuns, e só 300 de contas anónimas ou avatares.
A maior parte não era sequer para enganar ninguém sobre o adversário. Mais de metade (786) servia para promover uma candidatura, com candidatos retratados em situações profissionais lisonjeiras ou a anunciar comícios. Os ataques a rivais foram 360, e o humor ou sátira 264.
O aviso que faltou
As regras do TSE obrigam a identificar todo o conteúdo de campanha feito ou alterado com IA e proíbem os deepfakes. Na prática, só 655 das publicações tinham algum rótulo: 352 postos pelos autores, 300 pelas plataformas e 3 pelos dois. As restantes 768, cerca de 54%, circularam sem aviso.
E metade do total (716) foi classificada como deepfake ou mistura de deepfake com outro conteúdo sintético, precisamente a categoria que é proibida.
Onde circulou
O Instagram concentrou 794 casos e o Facebook 690 (a mesma peça pode aparecer nas duas redes). Lula surgiu em 508 conteúdos e Flávio Bolsonaro em cerca de 247.
Uma nota de rigor: o relatório abre a dizer que houve quase um conteúdo manipulado por hora. Pelas contas do próprio estudo, a média foi de 20,9 por dia, ou seja, um pouco menos de um por hora. Não muda a conclusão. Mostra só que os números merecem ser lidos até ao fim.
Por Oliver Grant
Gráfico: Tugadaily, com dados da Agência Lupa