Os preços dos alimentos vão sentir mais o calor do que a guerra, avisam os economistas
As ondas de calor deste verão devem pesar mais nos preços dos alimentos na zona euro em 2027 do que o conflito no Irão, diz a Oxford Economics. O BCE calcula que o calor de 2022 somou 0,67 pontos à inflação alimentar — e o sul da Europa foi o mais atingido.
A conta do supermercado do próximo ano está a ser escrita agora, nos campos a torrar ao sol. Economistas avisam que as ondas de calor deste verão são hoje uma ameaça maior para os preços dos alimentos na Europa do que a guerra no Irão — porque as colheitas danificadas devem pesar mais do que o efeito, já em queda, do petróleo e dos fertilizantes mais caros.
Porque é que o calor sobe os preços dos alimentos?
Porque estraga a produção antes de ela chegar à prateleira. O aviso vem da Oxford Economics, pela voz do economista Tomas Dvorak, e tem números do Banco Central Europeu a sustentá-lo: a onda de calor europeia de 2022 acrescentou 0,67 pontos percentuais à inflação alimentar europeia — 0,78 pontos na zona euro — e o efeito foi mais forte precisamente no sul da Europa, onde Portugal mora. Os agricultores já relatam fruta mais pequena e plantações atrasadas este verão.
A inflação dos alimentos não estava a descer?
Estava, e é isso que torna o aviso incómodo. A inflação alimentar da zona euro caiu de 2,5% em dezembro de 2025 para 1,6% em junho — o valor mais baixo desde meados de 2021. O risco é este alívio ser interrompido em 2027 pelo que o calor está a fazer às colheitas agora. E o BCE deixa a nota de longo prazo: uma onda de calor como a de 2022, em condições climáticas de 2035, valeria cerca de um ponto percentual inteiro de inflação alimentar.
Portugal conhece bem as duas pontas do problema: os campos que sofrem com o calor e os apoios que chegam de Bruxelas — ainda esta semana contámos como os adubos dispararam e a Comissão deu 162 milhões aos agricultores portugueses. Os dados oficiais da inflação europeia estão no Eurostat; os do calor, infelizmente, estão à janela.
Por Beatriz Mota
Imagem: Kolforn / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)